12 de março de 2011

Veste litúrgica - por Ir. Lídia N Awoki, pddm

A roupa que usamos, imprime em nós uma marca e diz muito da nossa personalidade e da nossa cultura. Expressa o que somos e ao mesmo tempo, marca o nosso corpo, a nossa alma, o nosso espírito! A veste tem a ver com a nossa identidade. Ajuda-nos a assumi-la. Cada cultura é identificada pelo modo de vestir. Pela veste sabemos a que povo, religião ou grupo tal pessoa pertence, mesmo que em algumas culturas a “veste” pode ser reduzida a uma pintura no próprio corpo. No teatro, a veste é parte dos elementos que dão vida a uma personagem, é algo bem personalizado, e cada detalhe é importante (tecido, forma, gola, botão...). Ninguém vai a uma festa com roupa de trabalho ou com roupa do dia a dia.
Tratando-se da veste nas celebrações religiosas constatamos dois estágios:
·         O costume do uso de vestes comuns, que em nada se diferenciam das usadas no quotidiano, que tem como única exigência a praticidade-funcionalidade.
·         Há também outro costume que é o de preferir vestes que apresentam certa beleza e nobreza, com arte e decoração, expressando a importância do ato de celebrar.
Na bíblia cobrir-se de saco é sinal de penitência. João Batista é apresentado no Novo Testamento como profeta da austeridade, vestindo roupa de couro e tendo um cinto na cintura. Mas a vocação do povo de Deus não é andar sempre revestido de roupas austeras. Somos chamados a andar vestidos de luz, somos filhos e filhas da luz (cf. Ef 5,8). São Paulo escreve na carta aos Gálatas: “Vós todos que fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo” (Gl 3,27). Cristo foi espoliado de suas vestes, mas na ressurreição foi revestido de glória, como antecipadamente aparece na transfiguração. Os anjos que anunciam a ressurreição estão vestidos de branco e com veste branca trajava a multidão do apocalipse, símbolo de sua participação na glória do Cristo. A roupa nova do batismo ou a nossa roupa festiva de domingo, tem a ver com esta iluminação do ressuscitado em nós, sinal de nossa participação na sua páscoa. Na Bíblia, também aparece a roupa ligada à missão. Eliseu ao herdar o espírito do profeta Elias recebe dele o seu manto.
As vestes litúrgicas têm a ver com este revestir-se do Cristo no serviço assumido a favor da comunidade, que tem como base a veste batismal do nosso ser discípulos e discípulas. A renovação litúrgica realizada pelo Vaticano II, introduziu um novo dado na história da liturgia: os batizados, leigos e leigas começaram a desempenhar um verdadeiro ministério litúrgico e a tomar lugar no espaço chamado presbitério, que no entender da tradição romana é o lugar ocupado por ministros/as, que na celebração estão a serviço da assembléia.
Nos últimos anos muitos ministérios litúrgicos foram nascendo nas comunidades: ministério da presidência da celebração dominical da Palavra, do batismo, testemunhas qualificadas do matrimonio, leitores, salmistas, etc. por isso diversas comunidades introduziram o uso das vestes para estes serviços. A opção pela veste é uma questão de comunicação e sacramentalidade, próprias de qualquer ação litúrgica.
Os (as) ministros (as) usam as vestes não como símbolo de poder ou para impor “respeito”, mas como sinal  do serviço que assumem a favor da comunidade celebrante. Colocar uma veste para exercer qualquer ministério significa revestir-se do Cristo em seu amor e sua doação: “Então Jesus se levantou da mesa, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura e lavou os pés dos discípulos” (Jo 13, 4-5).
O uso das vestes e das cores contribui para que a celebração seja realmente mais festiva. Festa para os olhos, para o coração, na alegria de quem compartilha com os irmãos e irmãs, os dons gratuitamente recebidos do Pai. Alegria pela presença do ressuscitado no meio da comunidade, mesmo em meio a tantos sofrimentos e miséria. A veste litúrgica, já em si é simbólica e isso é garantido pelo conjunto dos seus detalhes: o tecido, o modelo, a cor, a simplicidade.... Na Introdução geral do missal romano, nº 306 assim diz: “Convém que a beleza e nobreza de cada vestimenta decorram não tanto da multiplicidade de ornatos, mas do tecido e da forma...”.

Referencias para aprofundamento:
Buyst, Ione, Vestidos de luz, in Liturgia de Coração, espiritualidade da celebração, São Paulo, Paulus, 2003.
Buyst, Ione, Roupas, in Revista de Liturgia, São Paulo, nº 117.
Trudel, Jacques, Vestes litúrgicas para ministros e ministras leigos? Uma experiência positiva, in Revista de Liturgia, São Paulo, nº 117.
Carpanedo, Penha, Veste litúrgica, no exercício dos ministérios leigos, in Revista de Liturgia, São Paulo, nº 216. 

Ir. Lídia Natsuko Awoki, pddm
Artigo publicado com a autorização da autora.