21 de junho de 2011

Vida Religiosa: não podeis servir a Deus e ao poder


A Vida Religiosa desde sua origem é uma forma de testemunhar o amor de Deus no mundo. Viver a radicalidade do batismo na consagração total a Deus é um desafio sempre atual e profético em meio a um mundo que vive só pelo interesse, prazer e poder. 

O desafio sempre foi o de se inculturar sem deixar que a forma de pensar e ser do mundo entrasse na Vida Religiosa mudando seus valores e sua forma de pensar. O desafio à fidelidade é grande e sempre atual, pois diz quem nós somos, o que queremos e para onde estamos indo.

Tudo isso, porém, tem um preço, nem sempre baixo. A tentação é adaptar nossas obras, nossos carismas, nossa forma de pensar com a do mundo globalizado, tantas vezes criticado, mas muito criativo e sedutor. Se isso acontece, contudo, a Vida Religiosa, suas atividades, os diversos carismas deixam de exercerem sua real missão, perdendo de vez o significado da sua existência.

Precisamos nos inculturar (conhecer novas culturas e ver o que se pode fazer a partir do carisma específico de cada Instituto), mas sem nunca perder de vista o horizonte que é Deus. Adaptadas as necessidades atuais, nossas obras devem estar sempre a serviço da promoção da vida de todos, especialmente daqueles que não têm ninguém por eles.

É triste ver que muitas vezes a cultura “mundana” que tanto se critica, entra de cheio em nossas obras, tornando-as iguais ou piores daquelas mantidas por organismos não religiosos. Muitas foram fechadas por não darem mais lucro. Mas que lucro buscamos? Não seria o de aproximar mais as pessoas de Deus? Se buscamos apenas o lucro financeiro, acredito que muitas atividades perderam sua real dimensão e função.

Em muitas das empresas impera um clima de individualismo e disputa de poder. Infelizmente esse espírito, que acredito não ser nada evangélico, também entrou em muitas das nossas obras. Religiosos e religiosas disputando espaço e poder como se fossem duas crianças querendo pegar o mesmo doce. É compreensível que as crianças briguem por um momento porque o doce é algo sedutor para elas. Mas é inadmissível que na Vida Religiosa existam disputas pelo poder, pelo simples fato de que nós temos em primeiro lugar a missão de viver como Jesus viveu: ele não ficou disputando lugar nem função com ninguém.


Também pesa o fato de que todos os religiosos recebem por muitos anos formação humanitária, social, acadêmica, religiosa dentro do cristianismo orientada pelos seus Institutos. Porém, muitas vezes, nossas atitudes contradizem o que estudamos nesse tempo. É um verdadeiro farisaísmo.

Esquecemo-nos também que Jesus disse que o maior é aquele que serve e não aquele que oprimi (Cf Jo 13,14). É claro que dentro das estruturas, a alguns é confiada a missão de administrar. As obras precisam de pessoas preparadas e com espírito realmente cristão. Nunca devíamos nos esquecer, porém, que quanto maior a função, maior deveria ser nosso espírito de humildade diante de Deus e dos irmãos, pois “a quem muito é dado, muito mais será cobrado” (Cf Lc 12,48).

Se a humildade deixar de ser o alicerce de nós religiosos e das nossas obras, nós e elas perdemos a razão de existir no mundo. Se o Evangelho não for a primeira e principal regra, deixamos de exercer nossa função. Talvez por isso a Vida Religiosa está em crise em nosso tempo. Será que em primeiro lugar não está faltando o espírito de humildade, acolhida e fraternidade entre nós?

Que o Senhor nos ajude na fidelidade ao seu chamado e purifique nosso coração.

Hermes José Novakoski