18 de agosto de 2011

Limites

Laura Monte Serrat Barbosa

Depois de ser gerado, cresci numa bolsa, dentro de minha mãe. Nós dois construímos um cordão que nos ligava. Eu não percebia que aquele espaço era tão pequeno. Tinha a impressão de que o universo era só meu.

Conforme fui crescendo, fui sentindo os limites. Eu me mexia, e minha mãe logo percebia. A minha vontade era tomar conta de todo o seu corpo. Mas eu não podia, porque eu não era ela. Era um ser distinto, para o qual foi reservada somente aquela bolsa.

Quando nasci, o espaço aumentou. Confesso que me senti um pouco perdido e comecei a chorar. Embora eu estivesse num espaço muito maior do que uma bolsa, logo senti os limites desse “espação”. Eu teria que aprender a respirar e, por isso, chorei. Enquanto chorava, meus pulmões começavam a aprender o que teriam de fazer para deixar o ar entrar. Minha mãe agora não respirava mais por mim. Que saudade daquela bolsa!


Essa saudade não durou muito, pois logo o “espação” passou a ser delimitado. Puseram-me no colo, num berço, dentro de roupas, e comecei a me sentir mais seguro.

Dali a pouco, percebi que minha mãe não se alimentava mais por nós dois, e novamente coloquei o “chorador” para funcionar, pois o meu corpo me avisava que eu precisava me virar. A partir daí vieram os horários, e eu comecei a aprender que nem tudo é como a gente quer, na hora que quer e na quantidade que quer.

Fui crescendo, apesar de todos esses limites, e continuei achando que o espaço grande e eu éramos a mesma coisa. Então, fui aprendendo a resistir às limitações que a vida começava a me impor: não queria comer na hora de comer, queria comer somente doces, não queria tomar banho, não deixava cortarem minhas unhas, queria o brinquedo maior e mais colorido e, se desse, um monte desse brinquedo de uma só vez.

Tinha a sensação de que eu controlava tudo. Meus pais, no entanto, não deixavam o controle na minha mão. Isso me deu um certo alívio, já que tenho um amiguinho que ficava com o controle e sofria muito, pois seu “espação” foi ficando cada vez maior. Ele tinha tudo o que queria, mas tinha um “baita” medo de, por ser tão pequenininho, não dar conta daquela imensidão.

Eu chorava quando os meus pais me ensinavam, mas, do mesmo jeito que acontecia no meu bercinho, o choro me ajudava a entender mais um pouquinho da vida.

Mais velho um pouco, não precisava mais chorar constantemente, pois aprendi a falar e logo usava essa habilidade para persuadir os meus pais. Mas os danados não se deixavam enrolar e iam a cada dia mostrando que os limites nos ajudam a nos tornarmos humanos.

Meu amiguinho, aquele de quem falei agora há pouco, foi ficando cada vez mais “bicho”. Ele gritava muito, jogava-se no chão, chorava, batia, dava chutes e, no final, conseguia romper os tênues limites que lhe eram impostos e continuava com o controle nas mãos.

As pessoas não gostavam muito dele e começaram a chamá-lo por uns nomes difíceis, mas que significavam que ele não estava crescendo: egoísta! panaca! bobalhão! chato! insuportável! Cada vez que ele ouvia uma palavra dessas, achava que isso é que era o correto e passava a fazer mais malcriações para fazer jus ao rótulo que lhe estavam dando.

Coitado! Com tanta coisa e sem paz. À noite, dormia agitado. Acho que também chutava os sonhos. Durante o dia, não enxergava um passo diante do nariz.

Eu aprendi que, para vermos além de nós mesmos, é preciso nos depararmos com obstáculos, pois eles nos permitem buscar saídas, olhar para os lados, para frente e para trás. O que muita gente acha que é ruim, como um “não” na hora que queremos muito alguma coisa, é o que vai manter acesa a chama do desejo e, certamente, nos ajudar a encontrar formas mais adequadas de obtermos o que queremos. Esse esforço que fazemos para romper barreiras é o que vai provocando nosso crescimento emocional e cognitivo.

Acho que é por isso que eu estou aprendendo tão rapidamente as coisas na escola. Meus pais me ensinaram que o “não” é algo que faz parte de nossa vida. Já o meu amiguinho está tendo muitas dificuldades. Ele não aceita as regras existentes, pois sua vida até este momento foi feita somente de satisfações imediatas.
Fico pensando que quem tem tudo o que quer, na hora que quer, apaga a chama do desejo, não precisa fazer nenhum esforço e, por isso, não cresce.

Já imaginaram alguém sem desejo? Eu penso que esse alguém se torna insaciável, pois não precisa buscar, esperar. Está sempre engolindo as coisas como elas vêm. E quem consegue aprender, alimentar-se, engolindo sem mastigar, sem digerir, sem selecionar o que é bom e precisa permanecer daquilo que se pode deixar de lado?

Agora que estou bem maior entendo que limites na dose certa não nos fazem sofrer. Pelo contrário, permitem que a gente vá aprendendo a lutar por aquilo que deseja, a ficar forte para enfrentar as dificuldades e a contra-argumentar para que os limites não se tornem rígidos demais e impossíveis de serem flexibilizados caso a gente precise.

Por isso, pais de todo o mundo, não deixem de colocar limites nos seus filhos, pois é assim que vocês estarão possibilitando que eles se tornem verdadeiros cidadãos e seres mais humanos.


Laura Monte Serrat é psicopedagoga, professora de cursos
de pós-graduação em Psicopedagogia e assessora de
instituições de ensino em diversas cidades brasileiras.
(Texto recebido por e-mail)