24 de julho de 2015

Oração e partilha

Nossa caminhada de povo de Deus continua rumo à Terra Prometida. Somos caminheiros neste mundo, alimentados pela Palavra e pelo pão partilhado. Estamos no 17º Domingo do Tempo Comum.

Neste Domingo, dia do Senhor, somos convidados a partilha que gera o milagre da saciedade. Quando há partilha, não há necessitados. Quando há partilha, não falta, porque Deus mesmo se faz o pão e abençoa a quem partilha.

O homem que vem para dar alimento a Eliseu, traz consigo vinte pães de cevada e trigo. Porém, Eliseu não se contenta em comer só e pede para que o homem reparta estes pães com as cem pessoas que estavam com ele. (I Leitura: 2 Reis 4,42-44). 

No Evangelho Jesus olha para a multidão que acorre para Ele. Levanta os olhos e vê a multidão faminta e reparte cinco pães e dois peixes para cinco mil homens (Evangelho: João 6,1-15). Estes se alimentam e ainda sobrou, assim como também Elias tinha dito que comeriam e sobraria.

Queridos irmãos e irmãs, amigos e amigas. Hoje vivemos, como bem sabemos, um momento particular. No mundo o alimento produzido alimentaria duas vezes a quantidade de pessoas que existem. Por que será que tantas pessoas ainda morrem de fome? A resposta é lógica! Porque não existe partilha. Mas por que não existe partilha? Porque não se têm Deus no coração.

A partilha acontece quando temos Deus em nosso coração. Talvez você conheça pessoas que nem vão para a Igreja, mas que fazem belíssimos gestos de caridade. O que é isso? Deus! Claro que agora não vamos achar que não precisamos mais ir a Igreja. Muito pelo contrário. Nós que já participamos precisamos ainda mais buscar aprender com o Mestre a partilha.

No contexto de Pós Modernidade que estamos vivendo a partilha não é uma palavra que soa bem. Parece estranho, coisa do passado. No mundo do 'meu', é difícil falar do 'nosso'. Mas é por causa deste 'meu' tão profundamente arraigado, que tantas pessoas não tem o mínimo necessário para sobreviver. Este 'meu' é tão mal entendido que gerou muitas pessoas egoístas e tão preocupadas consigo mesmas que esquecem que vivemos num mundo de irmãos. Sim. Vivemos numa casa comum, temos "um só Deus e Pai de todos, que reina sobre todos, age por meio de todos e permanece em todos" (II Leitura: Efésios 4,1-6). Se Deus é Pai de todos, por que sentimos tanta dificuldade em partilhar com os irmãos?

Antes de olhar para as grandes nações e para os milionários (2% da população mundial detém 50% das riquezas produzidas), precisamos olhar para dentro de nossas casas. Qual a cultura que nossos filhos estão aprendendo: da partilha ou do egoísmo? Aprendemos a partilhar em casa e quem não partilha o pouco que possui, não partilhará o muito. Precisamos compreender que partilha não é só quando temos muito, mas ela tem que ser do que temos. O menino do Evangelho não tinha muito, apenas cinco pães e dois peixes. Ele poderia dizer: 'Isso é meu e não posso partilhar porque se não também vou passar fome'. Mas ele oferece a Jesus tudo o que possuía e por isso o milagre acontece. Quando oferecemos à Deus o que temos, ainda que pouco, ele se transforma em muito.

Muitos ainda dizem: "Onde Deus está que não acaba com a fome do mundo?" Deus poderia perguntar: "Onde estão os meus filhos, aqueles que dizem que me amam, me adoram, que não partilham?" É isso mesmo! Jesus não prometeu (ainda que muitos insistem hoje em dizer isso) dinheiro, riqueza, poder. Ele mesmo disse que o "Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça" (Mateus 8,20). Ele prometeu que estaria conosco todos os dias até o fim dos tempos (Cf Mateus 28,20) para nos ensinar que o Reino de Deus é partilha e não acúmulo, é solidariedade e não egoísmo. A fome não é problema de Deus, mas nosso. Deus nos deu tudo para que todos tenham o suficiente para viver (princípio da justiça), porém como poucos querem tudo, falta para muitos o mínimo necessário. É fácil querer jogar a culpa para Deus ou querer que Deus resolva um problema criado pelo homem. Isso é não querer se comprometer e cruzar os braços diante de tantas injustiças e egoísmos.

As mais lindas lições de partilha vemos acontecer entre as pessoas mais simples e sou testemunha disso. Os ricos geralmente partilham do que sobra. Os pobres dão tudo o que tem. É por isso que o Reino de Deus já está acontecendo no meio daqueles que partilham com amor tudo o que possuem. Com isso não estou querendo dizer que os ricos são todos egoístas. Não! Temos muitos que usam dos bens que possuem para a prática da caridade. E o mundo só não está pior porque ainda existem pessoas de Deus, com o coração generoso.

A liturgia deste final de semana nos convida a colocarmos nas mãos de Deus tudo o que temos. E quando nossas mãos se abrem para dar, também podem receber. Quando se fecham para acumular, não podem nada receber. Gosto desta expressão: "Ninguém é tão rico que não precisa de nada e tão pobre que não pode oferecer nada".

Termino com esta pequena história: Dizem que tanto no céu como no inferno existia uma montanha de alimentos. No inferno os garfos eram pequenos e todos podiam se alimentar sozinhos. No céu os garfos eras compridos que não tinha como se alimentar sozinho. Então alguém pergunta para Jesus porque os garfos eram compridos no céu e curtos no inferno. Jesus respondeu: porque aqui um alimento o outro. Isso é o céu: partilha! Um cuidando do outro e não preocupado egoisticamente consigo mesmo. Como nos diz São Paulo na carta das Efésios: "um só Deus e Pai de todos, que reina sobre todos".

Pe. Hermes José Novakoski, PSDP.