28 de agosto de 2022

Ensinamentos de Santa Faustina para viver minha vocação


Santa Faustina, a Apóstola da Divina Misericórdia passou por muitas provações e adversidades até poder de fato viver a sua vocação e cumprir a missão para qual foi escolhida por Deus.

Assim como ela há mais de 100 anos, atualmente muitos jovens enfrentam dúvidas, medos e forças contrárias que os impedem ou levam a negar a própria vocação. Isso é ainda mais forte quando há uma inclinação para a vida religiosa e sacerdotal.

Parece inaceitável alguém querer nos dias atuais abrir mão de viver com todo o conforto e benefícios que a vida moderna trouxe para se entregar a Deus e seguir uma vida com obediência, simplicidade e entrega.

Santa Faustina enfrentou inúmeras dificuldades para abraçar a sua vocação, mas a partir da sua história é possível tirar valiosos ensinamentos. Confira!

# Estar atento ao chamado de Deus

O chamado de Deus para Santa Faustina começou já na infância. Em seu Diário, ela conta que: “Quando eu tinha sete anos ouvi pela primeira vez a voz de Deus na minha alma ou seja, o convite à vida religiosa, mas nem sempre fui obediente à voz da graça. Não me encontrei com ninguém que me pudesse esclarecer essas coisas”.

O desejo de se consagrar totalmente a Deus a acompanhou durante a adolescência, mas perante as dificuldades, por um tempo desistiu da ideia.

Aos 18 anos, isso na década de 1920 a jovem fez um insistente pedido aos pais para que a deixassem entrar no convento, eles porém recusaram. Depois dessa negativa, a jovem passou a viver uma vida de vaidades, não prestando nenhuma atenção à voz da Graça, embora sua alma não encontrasse satisfação em nada disso.

“Numa ocasião, eu estava com uma de minhas irmãs num baile. Quando todos se divertiam a valer, a minha alma senti tormentos interiores. No momento em que comecei a dançar, de repente, vi Jesus a meu lado; Jesus sofredor, despojado de suas vestes, todo coberto de chagas e que me disse estas palavras: Até quando hei de ter paciência contigo e até quando tu Me desiludirás? Neste momento, parou a música encantadora, não vi mais as pessoas que comigo estavam, somente Jesus e eu ali permanecíamos. Sentei-me ao lado de minha irmã, disfarçando com uma dor de cabeça aquilo que se passava comigo. Em seguida, deixei discretamente os que me acompanhavam e fui à catedral de Santo Estanislau Kotska. Já começava a entardecer, havia poucas pessoas na catedral. Sem prestar atenção a nada do que ocorria à minha volta, caí de bruços diante do Santíssimo Sacramento e pedi ao Senhor que me desse a conhecer o que devia fazer a seguir”.

O ensinamento que tiramos a partir dessa passagem é que Deus sempre dá um jeito de se manifestar na nossa vida para que descubramos a nossa vocação. Por isso, é importante estar atento aos sinais.

# Viver a vocação exige renúncia e dedicação

“Então ouvi estas palavras: Vai imediatamente a Varsóvia (Polônia), e lá entrarás num convento. Terminada a oração, levantei-me, fui para casa e arrumei as coisas indispensáveis. Como pude, relatei à minha irmã o que acontecera na minha alma; pedi que se despedisse por mim dos meus pais e assim, só com a roupa que tinha no corpo, sem mais nada vim para Varsóvia”.

A jovem foi acolhida no dia 1º de agosto de 1925 na clausura do convento da Congregação das Irmãs de Nossa Senhora da Misericórdia, em Varsóvia. Antes disso, para atender às condições, teve que trabalhar como empregada doméstica numa família numerosa na região de Varsóvia, para dessa forma conseguir o enxoval pessoal.

“Sentia-me imensamente feliz, parecia que havia entrado na vida do paraíso.

O meu coração só era capaz de uma contínua oração de ação de graças”

Dentro da Congregação, recebeu o hábito e o nome de Irmã Maria Faustina, isso em 1926.

Foi tentada a deixar essa comunidade várias vezes, mas Jesus lhe apareceu e exortou: “Chamei-te para este e não para outro lugar e preparei muitas graças para ti”.

A partir dessa passagem da vida de Santa Faustina aprendemos que para viver a nossa vocação muitas vezes precisamos fazer renúncias e sacrifícios. Mas tudo vale a pena, pois nosso coração estará alegre e em paz.

# Estar atento a nossa missão

O Senhor escolheu Irmã Faustina para uma missão especial. Depois de atravessar pela “noite escura” das provações físicas, morais e espirituais, a partir de 22 de fevereiro de 1931, em Plock, o próprio Senhor Jesus Cristo começa a se manifestar à Irmã Faustina de um modo particular, revelando de um modo extraordinário a centralidade do mistério da Misericórdia Divina para o mundo e a história – presente em todo o agir divino, particularmente na Cruz Redentora de Cristo – e novas formas de culto e apostolado em prol da Divina Misericórdia. Faustina descreveu esta primeira visão:

“Da túnica entreaberta sobre o peito saíam dois grandes raios, um vermelho e outro pálido. (…) Logo depois, Jesus me disse: Pinta uma Imagem de acordo com o modelo que estás vendo, com a inscrição: Jesus, eu confio em Vós”.

Este fato da vida de Santa Faustina nos ensina que viver nossa vocação significa assumir nossa missão, evangelizar e conduzir o povo para a divina misericórdia do Senhor.

# Confiança no Senhor

Ao longo do Diário descobrimos que Jesus escolheu Santa Faustina como secretária, apóstola, testemunha e dispensadora da Divina Misericórdia. Santa Faustina se entregou, com todo o empenho de sua alma, a essa importante missão, apesar de sentir em si tanta incerteza e incapacidade. Mesmo assim, sua confiança no Senhor sempre foi mais forte.

“Ó Meu Jesus […] vós sois a minha força — sustentai-me, para que sempre cumpra fielmente tudo o que de mim exigis. Por mim mesma nada posso, mas, se Vós me amparardes, nada significam todas as dificuldades”.

O Senhor nunca a deixava sem resposta.

“Não temas. Minha filha, não estás sozinha. Luta com coragem, porque o Meu braço te ampara. Luta pela salvação das almas, exortando-as à confiança na Minha misericórdia, porque esta é a tua tarefa nesta vida e na futura.”

Com o exemplo de Santa Faustina aprendemos que o Senhor não nos desampara quando vivemos nossa vocação. Basta confiar verdadeiramente!

FONTE: Misericórdia

20 de agosto de 2022

Em quem você vai votar?


Hermes José Novakoski, psdp.

(Sacerdote e Jornalista)

Estamos no ano eleitoral. Olhando para a imagem da urna com a expressão FIM, surgiram algumas indagações que partilho com vocês.

Precisamos dar FIM a venda de votos.

Dar FIM a favores políticos, pois político não deve favor, mas tem o dever de governar com justiça para todos.

Precisamos dar FIM a corrupção que assola nosso país. De uma grande potência que somos, estamos sendo transformados em uma nação impotente, comandada por carteis internacionais.

Dar FIM as injustiças sociais que fazem milhares de vítimas todos os anos.

FIM as Fake News que manipulam as pessoas, colocando uns contra os outros.

Nos últimos anos tudo se justifica com a pandemia. Aumentos abusivos quase todos os dias em tudo. Por quê? Desculpe, mas nem tudo se justifica. Estive a poucos meses na Itália e encontrei preços praticados quatro anos atrás. Por que no Brasil tudo sobe, sobe, sobe? Quem está lucrando com tudo isso? 

Antes de ficar dando auxílios, bolsa, etc precisamos dar educação de qualidade, acesso a saúde pública, saneamento básico. Eles gostam de pensar que somos incapazes de trabalhar, estudar e mudar nossa realidade e nosso país. Quanto mais ignorante um povo, mais fácil manobrar de acordo com interesses particulares. Poucos questionam as coisas, as notícias, as informações divulgadas porque se tornaram massa de manipulação. 

Jesus Cristo disse: "A verdade vos libertará!" (Jo 8, 32). A maior verdade é o Evangelho e a pessoa de Jesus Cristo. Em todas as esferas da sociedade se deveria presar pela verdade dos fatos. Quantas notícias veiculadas nos grandes meios de comunicação são financiadas por empresas ou pelo próprio governo. Números são manipulados e a justificativa é sempre a mesma: "segundo especialistas"! Quem são estes especialistas? Eles não têm nome? E assim mentiras tornam-se notícias e muitos acreditam que seja verdade.

Igrejas tornam-se palco de discursos políticos e, às vezes, semeando e estimulando violência. O partido dos cristãos deve ser a justiça segundo os critérios do Evangelho. Quantos vão a missa e votam em corruptos; quantos comungam o corpo santo de Cristo e depois crucificam o mesmo corpo nos irmãos marginalizados, desassistidos, abandonados à mercê da própria sorte.

Querido povo de Deus! Chegou a hora de mudar. Mudar não por mudar. Mudar primeiramente nossa consciência. Mudar nossa forma de pensar. Mudar dizendo não a compra de votos. Mudar é se converter. Nossa escolha reflete em que acreditamos.

São João alerta: "Quem diz que crê em Deus e odeia o seu irmão é um mentiroso" (cf. 1Jo 4,20). Quantos candidatos vão passar pelas ruas, casas, comércios, abraçando o povo e depois de eleitos votam em projetos e leis que matam o mesmo povo. Cuidado com os "tapinhas" nas costas, pois essa mesma mão depois pode te apunhalar.

A grande dúvida de parcela da população, e também a minha, é em quem votar. Os que já estão no poder devem ser avaliados por aquilo que fizeram. Como está o acesso a saúde na sua cidade, no seu estado? Temos educação de qualidade com professores bem remunerados e escolas com boa estrutura com todo material didático? As estradas estiveram sempre bem pavimentadas, com sinalização e manutenção? A realidade mostra o interesse e a preocupação dos políticos com o povo. Não vamos acreditar em promessas falsas. Vender voto é corrupção. Se você é daqueles que vende o voto, não pode reclamar da corrupção dos políticos. Precisamos eliminar esse pecado e esse vírus pandêmico que mata milhões de pessoas no mundo. Mata em silêncio e ninguém fala nada.

Precisamos mudar. A mudança começa por mim e você! 

Vamos começar?



28 de junho de 2022

A família é o primeiro lugar onde se aprende a amar

Homilia do Papa Francisco na celebração de encerramento do X Encontro Mundial das Famílias

X ENCONTRO MUNDIAL DAS FAMÍLIAS

HOMILIA DO PAPA FRANCISCO

No âmbito do X Encontro Mundial das Famílias, este é o momento da ação de graças. Hoje trazemos, com gratidão, à presença de Deus – como num grande ofertório – tudo o que o Espírito Santo semeou em vós, queridas famílias. Algumas de vós participaram nos momentos de reflexão e partilha aqui no Vaticano; outras animaram e viveram os mesmos momentos nas respetivas dioceses, formando uma espécie de imensa constelação. Imagino a riqueza de experiências, propósitos, sonhos, como não mancaram também as preocupações e as incertezas. Agora apresentamos tudo ao Senhor e pedimos-Lhe que vos sustente com a sua força e o seu amor. Sois pais, mães, filhos, avós, tios; sois adultos, crianças, jovens, idosos; cada qual com uma experiência diversa de família, mas todos com a mesma esperança feita oração: Que Deus abençoe e guarde as vossas famílias e todas as famílias do mundo.

Na segunda Leitura, São Paulo falou-nos de liberdade. A liberdade é um dos bens mais apreciados e procurados pelo homem moderno e contemporâneo. Todos desejam ser livres, não sofrer condicionamentos, nem ver-se limitados; por isso aspiram a libertar-se de qualquer tipo de «prisão»: cultural, social, econômica. E, no entanto, quantas pessoas carecem da liberdade maior: a liberdade interior! A maior liberdade é a liberdade interior. O Apóstolo lembra-nos, a nós cristãos, que esta é primariamente um dom, quando exclama: «Foi para a liberdade que Cristo nos libertou» (Gal 5, 1). A liberdade foi-nos dada. Nascemos, todos, com muitos condicionamentos, interiores e exteriores, e sobretudo com a tendência para o egoísmo, isto é, para nos colocarmos a nós mesmos no centro e privilegiar os nossos próprios interesses. Mas, desta escravidão, libertou-nos Cristo. Para evitar equívocos, São Paulo adverte-nos que a liberdade dada por Deus não é a liberdade falsa e vazia do mundo que, na realidade, é «uma ocasião para os [nossos] apetites carnais» (Gal 5, 13). Essa, não! A liberdade, que Cristo nos conquistou com o preço do seu Sangue, está inteiramente orientada para o amor, a fim de que – como dizia, e nos diz hoje a nós, o Apóstolo –, «pelo amor, [nos façamos] servos uns dos outros» (Gal 5, 13).

Todos vós, esposos, ao formar a vossa família, com a graça de Cristo fizestes esta corajosa opção: não usar a liberdade para proveito próprio, mas para amar as pessoas que Deus colocou junto de vós. Em vez de viver como «ilhas», fizestes-vos «servos uns dos outros». Assim se vive a liberdade em família! Não há «planetas» ou «satélites», movendo-se cada qual pela sua própria órbita. A família é o lugar do encontro, da partilha, da saída de si mesmo para acolher o outro e estar junto dele. É o primeiro lugar onde se aprende a amar. Nunca o esqueçais: a família é o primeiro lugar onde se aprende a amar.

Irmãos e irmãs, ao mesmo tempo que reafirmamos com grande convicção tudo isto, bem sabemos que na realidade dos fatos não é sempre assim, por muitos motivos e pelas mais variadas situações. Por isso, justamente enquanto afirmamos a beleza da família, sentimos mais do que nunca que devemos defendê-la. Não deixemos que seja poluída pelos venenos do egoísmo, do individualismo, da cultura da indiferença e da cultura do descarte, perdendo assim o seu DNA que é o acolhimento e o espírito de serviço. A caraterística própria da família: o acolhimento, o espírito de serviço dentro da família.

A relação entre os profetas Elias e Eliseu, apresentada na primeira Leitura, faz-nos pensar na relação entre as gerações, na «passagem do testemunho» entre pais e filhos. No mundo atual, esta relação não é simples, revelando-se muitas vezes motivo de preocupação. Os pais temem que os filhos não consigam orientar-se no meio da complexidade e confusão das nossas sociedades, onde tudo parece caótico, precário, acabando por extraviar-se da sua estrada. Este medo torna alguns pais ansiosos; outros, superprotetores. E por vezes acaba até por bloquear o desejo de trazer novas vidas ao mundo.

Faz-nos bem refletir sobre a relação entre Elias e Eliseu. Elias, num momento de crise e medo face ao futuro, recebe de Deus a ordem de ungir Eliseu como seu sucessor. Deus faz compreender a Elias que o mundo não termina com ele, e manda-lhe transmitir a outro a sua missão. Tal é o significado deste gesto descrito no texto: Elias lança o seu manto sobre os ombros de Eliseu e, a partir daquele momento, o discípulo tomará o lugar do mestre para continuar o seu ministério profético em Israel. Deus mostra, assim, que tem confiança no jovem Eliseu. O velho Elias passa a Eliseu a função, a vocação profética. Tem confiança num jovem, tem confiança no futuro. Naquele gesto, está contida toda uma esperança, e é com esperança que passa o testemunho.

Como é importante, para os pais, contemplar o modo de agir de Deus! Deus ama os jovens, mas isto não significa que os preserve de todo o risco, desafio e sofrimento. Deus não é ansioso, nem superprotetor. Pensai bem nisto: Deus não é ansioso, nem superprotetor; pelo contrário, tem confiança neles e chama cada um à medida alta da vida e da missão. Pensemos no pequeno Samuel, no adolescente David, no jovem Jeremias; pensemos sobretudo naquela donzela de dezesseis ou dezessete anos que concebeu Jesus: a Virgem Maria. Fia-Se duma donzela. Queridos pais, a Palavra de Deus mostra-nos o caminho: não é preservar os filhos do mínimo incômodo e sofrimento, mas procurar transmitir-lhes a paixão pela vida, acender neles o desejo de encontrar a sua vocação e abraçar a missão grande que Deus pensou para eles. É precisamente esta descoberta que torna Eliseu corajoso, determinado, que o torna adulto. O afastamento dos pais e a morte dos bois são o sinal concreto de que Eliseu compreendeu que agora «é a vez dele», que é hora de acolher a vocação de Deus e levar por diante aquilo que viu o seu mestre fazer. E fá-lo-á com coragem até ao fim da sua vida. Queridos pais, se ajudardes os filhos a descobrirem e acolherem a sua vocação, vereis que serão «fascinados» por esta missão e terão força para enfrentar e superar as dificuldades da vida.

Quero ainda acrescentar que a melhor maneira de um educador ajudar a outrem a seguir a sua vocação é abraçar com um amor fiel a própria. Foi o que os discípulos viram Jesus fazer; e o Evangelho de hoje mostra-nos um momento emblemático disso mesmo, quando Jesus «Se dirigiu resolutamente para Jerusalém» (Lc 9, 51), sabendo bem que lá seria condenado e morto. E, no caminho para Jerusalém, Ele vê-Se repelido pelos habitantes da Samaria; uma rejeição, que suscita a reação indignada de Tiago e João, mas que Jesus aceita pois faz parte da sua vocação: ao princípio, fora rejeitado em Nazaré –pensemos naquele dia na sinagoga de Nazaré (cf. Mt 13, 53-58) –, agora, na Samaria e, no fim, será rejeitado em Jerusalém. Jesus aceita tudo isto, porque veio para tomar sobre Si os nossos pecados. De igual modo, não há nada mais animador para os filhos do que ver os seus pais viverem o casamento e a família como uma missão, com fidelidade e paciência, apesar das dificuldades, horas tristes e provações. E, o que sucedeu com Jesus na Samaria, acontece em toda a vocação cristã, incluindo a vocação familiar. Todos o sabemos: há momentos em que é preciso assumir as resistências, os fechamentos, as incompreensões que provêm do coração humano e, com a graça de Cristo, transformá-los em acolhimento do outro, em amor gratuito.

E no caminho para Jerusalém, imediatamente depois deste episódio que, de certo modo, nos descreve a «vocação de Jesus», o Evangelho apresenta-nos outros três chamamentos, três vocações de igual número de aspirantes a discípulos de Jesus. O primeiro é convidado a não procurar, no seguimento do Mestre, uma morada estável, uma acomodação segura. Com efeito Ele «não tem onde reclinar a cabeça» (Lc 9, 58). Seguir Jesus significa pôr-se em movimento e estar sempre em movimento, sempre «em viagem» com Ele através das vicissitudes da vida. Como tudo isto é verdade para vós, casados! Também vós, ao acolher a vocação para o matrimônio e a família, deixastes o vosso «ninho» e começastes uma viagem, da qual não podíeis conhecer de antemão todas as etapas, e que vos mantém em constante movimento, com situações sempre novas, fatos inesperados, surpresas (algumas dolorosas). Assim é o caminho com o Senhor: dinâmico, imprevisível mas sempre uma maravilhosa descoberta! Lembremo-nos de que o repouso de cada discípulo de Jesus encontra-se justamente em fazer cada dia a vontade de Deus, seja ela qual for.

O segundo discípulo é convidado a não voltar atrás porque queria, «primeiro, sepultar o pai» (cf. Lc 9, 59-60). Não se trata de faltar ao quarto mandamento, que permanece sempre válido e é um mandamento que nos santifica imenso; mas é um convite a obedecer, antes de tudo, ao primeiro mandamento: amar a Deus sobre todas as coisas. O mesmo se verifica com o terceiro discípulo, chamado a seguir Cristo resolutamente e de todo o coração, sem «olhar para trás», nem mesmo para se despedir dos seus familiares (cf. Lc 9, 61-62).

Queridas famílias, também vós sois convidadas a não ter outras prioridades, a «não olhar para trás», isto é, a não vos lamentardes repassando a vida de outrora, a liberdade de antes com as suas ilusões enganadoras: a vida fossiliza-se quando não acolhe a novidade do chamamento de Deus, chorando pela falta do passado. E este caminho de lamentar a falta do passado e no não acolher as novidades que Deus nos manda, sempre nos fossiliza; faz-nos duros, faz-nos desumanos. Quando Jesus chama, nomeadamente ao matrimônio e à família, pede para olharmos em frente, e sempre nos precede no caminho, sempre nos precede no amor e no serviço. Quem O segue, não fica decepcionado!

Queridos irmãos e irmãs, providencialmente todas as Leituras da liturgia de hoje nos falam de vocação, que é precisamente o tema deste X Encontro Mundial das Famílias: «O amor familiar: vocação e caminho de santidade». Com a força desta Palavra de vida, animo-vos a retomar resolutamente o caminho do amor familiar, partilhando com todos os membros da família a alegria desta vocação. E não é uma estrada fácil, não é um caminho fácil: haverá momentos escuros, momentos de dificuldade nos quais pensaremos que tudo acabou. O amor que viveis entre vós seja sempre aberto, comunicativo, capaz de «tocar com a mão» os mais frágeis e os feridos que encontrardes pelo caminho: frágeis no corpo e frágeis na alma. De fato é quando se dá que o amor, incluindo o amor familiar, se purifica e fortalece.

A aposta no amor familiar é corajosa: é preciso coragem para casar. Vemos muitos jovens que não têm a coragem de se casar, e muitas vezes acontece uma mãe vir dizer-me: «Faça qualquer coisa, converse com o meu filho, que não se casa; tem 37 anos!» – «Mas, senhora, deixe de lhe passar a ferro as camisas, comece a senhora a mandá-lo sair um pouco, que saia do ninho». Porque o amor familiar impele os filhos a voarem, ensina-os a voar e impele-os a voar. Não é possessivo: sempre dá liberdade. E depois, nos momentos difíceis, nas crises – crises, todas as famílias as têm –, por favor, não sigais o caminho mais fácil: «volto para casa da mãe». Não. Andai avante com esta aposta corajosa. Haverá momentos difíceis, haverá momentos duros, mas avante, sempre. O teu marido, a tua esposa tem aquela centelha de amor que vós sentistes ao princípio: deixai-a sair de dentro, redescobri o amor. E isto ajudar-vos-á imenso nos momentos de crise.

A Igreja está convosco; antes, a Igreja está em vós! Com efeito, a Igreja nasceu de uma família, a família de Nazaré, e é composta principalmente por famílias. Que o Senhor vos ajude cada dia a permanecer na unidade, na paz, na alegria e também numa fiel perseverança que nos faz viver melhor e mostra a todos que Deus é amor e comunhão de vida.

Fote: Copyright © Dicastero per la Comunicazione - Libreria Editrice Vaticana

17 de maio de 2022

A Profecia da Comunhão


Em Maguzzano na Itália
Irmãos e irmãs da Congregação 
Celebram juntos os Capítulos Gerais 
"A Profecia da Comunhão"

Somos a Família Calabriana 
Temos um só pai fundador 
Homem santo e de respeito 
Para todos nós intercessor.

Humilde servo do Senhor 
Viveu com grande fé e amor
Em tudo que fez a Deus buscou
Testemunhando o criador

Esse momento manifesta 
Que Deus nos quer como irmãos 
Reavivando a fé e a confiança 
Eis a nossa grande missão 

Tudo seja para a maior glória de Deus
Nos dizem as Contribuições 
Santidade deve ser nossa meta
Eis o caminho seguro da salvação 

No mundo tereis tribulações 
Ja nos alertou nosso Senhor
Vencer o mundo deve ser nossa meta
Pois só Deus é o verdadeiro amor

Que este Capítulo Geral nos ajude
A vivermos como verdadeiros irmãos
Pois Deus Trindade, Pai, Filho, Espírito Santo
É o perfeito modelo de comunhão

Um mundo em constante mudança
Requer mais nossa atenção
Para não perdermos o foco 
Da nossa consagração

Dias de reflexão e intenso trabalho
Uma luz que se acende na escuridão
Deixemos brilhar onde estamos
A beleza e a grandeza da nossa vocação

Deus Pai nunca nos abandona
Sempre caminha com a gente
Nosso carisma, sempre atual, é:
Confiança em Deus Pai Providente

Deus seja louvado por esta grande família
Presente em todos os continentes
Com este belo e sempre atual carisma
Para o mundo, em todos os tempos, um grande presente.

Padre Hermes José Novakoski, psdp


 

8 de maio de 2022

POBRE SERVO: VOCAÇÃO, IDENTIDADE E MISSÃO

Padre Hermes José Novakoski, psdp 

Precisamos mergulhar na Espiritualidade Calabriana para manter viva nossa vocação, identidade e missão. Aprofundar-se constantemente para não ficarmos longe do ideal proposto. Eis um grande desafio.

Nós temos um panorama geral, mas não genérico, que a Igreja oferece sobre o ser consagrado. O Pobre Servo vive uma faceta do Evangelho que Deus inspirou a São João Calábria. Assim, cada Instituto Religioso tem, na Igreja, uma identidade própria, dentro do panorama maior que é o Evangelho.

Abordaremos três elementos que ajudam na nossa consagração, e que se entrelaçam e se complementam. Um tripé que dá alicerce para bem viver a essência do ser religioso consagrado.

 VOCAÇÃO

Toda vocação nasce no coração de Deus. Podemos dizer que é o caminho de felicidade que o Pai pensou para cada um dos seus filhos e filhas. Todos recebemos de Deus uma vocação.

A vocação encontra sua realização plena na doação da nossa vida em nome de Deus. Ninguém, que encontra sua verdadeira vocação, vive para si mesmo. Vemos isso em Maria, nos Apóstolos, nos santos e santas e sobretudo, em Jesus.

Vivendo a vocação recebida de Deus com total amor e doação, trilharemos o caminho de santidade. São João Calábria levava isso muito a sério. Ele disse inclusive que a nossa salvação depende de como vivemos nossa vocação. Acompanhemos suas palavras: “Se nós não vivermos segundo a nossa especial vocação, decretaremos a morte das nossas almas e a desta Obra. Meu Deus, que grande responsabilidade!” (19 de março de 1933).

Nosso santo fundador chama-nos a atenção inúmeras vezes sobre o compromisso que assumimos perante Deus. Chama a ‘Vocação’ e o ‘pertencer a Obra’ como vocação especial. Aqui ele não está menosprezando as outras vocações ou carismas, mas está chamando a atenção para aqueles que Deus chamou a fazer parte desta Congregação. Toda vocação é especial porque nasce no coração de Deus. Toda vocação é única e irrepetível, pois cada um responde de modo pessoal e incopiável o chamado que o Senhor faz.

A cada tempo da história, no hoje, Deus suscita vocações para que manifestem seu amor, misericórdia e ternura. Viver bem, viver a altura da vocação, nas palavras de São João Calábria, é viver conforme a vontade Daquele que nos chamou: “Caríssimos, pelo amor de Deus, pelo amor das almas de vocês, pelo sangue de Jesus bendito, façam de tudo para viver à altura da sua vocação: vocação toda própria e particular dos tempos presentes, tempos calamitosos, tempos tristes, mas também tempos de grande misericórdia da parte de Jesus bendito, que suscitou vocês, ó meus queridos, e vocês são os instrumentos para sanar, consolar, reconduzir ao reto caminho muitas almas. Vocês, meus queridos, se viverem bem, segundo a sua santa vocação, não deverão invejar ninguém, nem mesmo os que foram, são e serão grandes diante do mundo, os reis, os personagens desta terra, pois vocês são diretamente de Deus e de uma forma toda especial” (18 de abril de 1920).

O mundo nos oferece muitas possibilidades. Às vezes, podemos ficar fascinados pelas coisas que nos são oferecidas, esquecendo-nos da nossa vocação que é santa e que dessa forma deve ser vivida. Nosso foco deve ser Deus, o céu, os bens espirituais. “E que vocação é a nossa, caríssimos irmãos! Enquanto o mundo todo se agita para ir atrás das coisas da terra, nós devemos aspirar só ao céu, à santidade” (24 de abril de 1938). Buscando as coisas do céu porque é para lá que estamos caminhando. Assim, testemunhamos ao mundo que tudo o que ele nos oferece é efêmero e passageiro. Só as coisas do alto permanecem. É por isso que Jesus nos ensina: “Não junteis tesouros aqui na terra, onde a traça e a ferrugem destroem, e os ladrões assaltam e roubam. Ao contrário, juntai para vós tesouros no céu, onde nem a traça e a ferrugem destroem, nem os ladrões assaltam e roubam. Porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mt 6,19-21). Enquanto muitos correm preocupados com os tesouros para este mundo, nós devemos mostrar o contrário.

Vivendo de acordo com a nossa vocação, o Senhor continuará nos usando como seus instrumentos e canais. Fará grandes coisas se formos instrumentos dóceis e humildes em suas mãos. Belíssimas são as palavras do pai: “Se agirmos com o espírito da nossa vocação nos tornaremos dignos de que o Senhor nos use para realizar os grandes divinos desígnios que Ele estabeleceu realizar através dos Pobres Servos. E a nossa Obra se tornará realmente uma arca de salvação que atravessa ileso e firme as tempestades que ameaçam o mundo pecador, conservando em seu seio os germes de uma salutar renovação da vida cristã” (7 de agosto de 1939).

Neste último trecho, São João Calábria traz um dos elementos muito significativos: “nossa Obra se tornará realmente uma arca de salvação”. Muitas almas chegarão ao céu se nós vivermos bem a nossa vocação, pois nos olharão e serão motivadas a prática do amor, da verdade e da justiça. Por outro lado, ai de nós se escandalizarmos alguém. Por isso, esta Obra não pode jamais se esquecer de falar do amor de Deus a todas as pessoas.

Não podemos nos envergonhar da nossa vocação, e nem a usarmos de conveniência. As vezes queremos que o nosso ser religioso fique visível somente em determinadas circunstâncias. Essa é uma forma medíocre de vivermos a nossa vocação, tão querida e especial por Deus. Ele nos chama a ser religiosos em todas as ocasiões. “Queridos irmãos, estejam sempre à altura da sua vocação. Em todo lugar onde trabalharem, apresentem-se assim como vocês se chamam: Pobres Servos da Divina Providência” (Outubro de 1939).

O Senhor, na sua infinita Misericórdia, nos dá todas as graças necessárias para vivermos bem a nossa vocação. Depende de nós, querer ou não. Temos na Igreja e na Congregação todos os meios seguros para nossa santificação. Não precisamos buscar nada a mais e nem inventar coisas. A Palavra de Deus, a Igreja, as Constituições (Regras), as práticas de piedade são garantias para nós: “Quando vejo um religioso que observa as suas Regras, que é fiel às suas práticas de piedade, que, numa palavra, corresponde à sua vocação, sinto-me reviver” (22 de agosto de 1941). Quanta alegria sente Deus quando nós correspondemos a nossa vocação. Apesar de sermos nós os maiores beneficiados. São João Calábria segue nos indicando alguns meios que não podem ser negligenciados: “E se vocês quiserem alimentar em vocês mesmos a vida interior, recomendo-lhes as práticas de piedade: a santa Meditação e a leitura espiritual, a santa Missa e a Comunhão, etc. Recomendo-lhes a pontualidade; sejam exatos, fidelíssimos. Sem tudo isso, faltará óleo em nossa lâmpada; e pobres de nós se na Casa do Senhor formos lâmpadas apagadas! Para que serviríamos senão para sermos removidos? A perda da vocação: meu Deus, que desventura para um religioso e particularmente para um Pobre Servo!” (Ibidem).

Quero fechar com essa conhecida frase de 1935: “Oh, meus queridos e amados irmãos, procurem dar valor e amar muito a sua vocação”. Quem ama, cuida. Cuidemos desse tesouro que o Senhor nos deu. No céu compreenderemos a grandeza da nossa vocação.

Poderíamos continuar citando muitos outros trechos. Fica o convite para lermos as Cartas que São João Calábria nos deixou. Um grande tesouro e testamento que nos ajuda a viver melhor nossa vocação e a buscar, como ele buscou e desejou que todos buscassem, a santidade.

 IDENTIDADE

Outro elemento muito importante é a nossa identidade. Quem é o vocacionado, o consagrado? Perdemos nossa identidade quando fazemos a Profissão Religiosa?

Ao falar da identidade refiro-me a identificação com a pessoa de Jesus Cristo, o Filho perfeito do Pai. Ser consagrado é ser outro Cristo. São João Calábria e muitos santos falaram dessa realidade e viveram dessa forma. Deus Pai enviou o seu Filho Jesus porque só Ele é o caminho, a verdade e a vida e ninguém vai ao Pai, ao céu, senão por Ele, n’Ele e com Ele (cf Jo 14,6).

O consagrado deve ser um homem que não somente segue o Mestre, mas imita-o. Configura toda a sua vida com a vida do Mestre. Jesus diz que devemos amar como Ele amou. Esse é o caminho: “Amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei” (Jo 15,12). Não precisamos buscar “gurus” na vida da Igreja e muito menos fora. Jesus é o único que deve ser imitado em tudo. Depois de lavar os pés dos discípulos, Jesus disse: “Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz” (Jo 13,15). É assim que devemos viver a nossa vocação, fazendo o que o Mestre fez. Imitando Ele, estaremos no caminho seguro.

O consagrado encontra a razão da sua vida, existência e missão em Jesus Cristo. Devemos ser como Jesus. Imitar o Mestre é um trabalho de configuração para toda a vida. As vezes podemos desanimar porque nos sentimos tão distantes do ideal. Mas não podemos desanimar. Precisamos retomar o caminho todos os dias. Começar de novo sempre. Caminhar olhando para a Cruz, aliás, abraçando a Cruz, pois é nela que aprendemos a doação, o amor, a entrega. E a não desistir.

Quando professamos os Votos Trienais (Perpétuos) está previsto um gesto muito significativo. O candidato se ajoelha ou se prosta diante do altar, enquanto é entoada a Ladainha de todos os Santos. O céu inteiro reza por este que deseja imitar Cristo na sua vida. Gostaria de chamar a atenção para este momento tão significativo.

Ao prostrar-nos diante do altar, ou seja, diante de Cristo, morremos para nós mesmos. Não é um simples gesto ritual. Neste momento a pessoa deve morrer e sepultar em Cristo tudo o que é para levantar, despertar uma criatura nova, como Ele na Páscoa. Aí morre o nosso eu, ou seja, a nossa vontade e o nosso querer. Agora preciso fazer o que Jesus fez e me pede. Com isso não diminuímos, mas somos integrados no Corpo Místico de Cristo, em seu próprio ser. Isso é muito grande e belo. Precisamos lembrar sempre deste gesto.

Quantos interpretam erroneamente a Profissão Trienal. As vezes se chega a escutar absurdos como este: “Agora sou livre para fazer o que quero!” Não! Quem pensa assim, não entendeu nada e brinca com Deus. A partir de agora não podemos mais fazer o que queremos, porque nossa vontade precisa desaparecer na vontade de Cristo. Com a Profissão Trienal renunciamos a nós mesmos, aos nossos gostos, vontades, quereres. Agora, assim como Jesus Cristo, precisamos estar dispostos a dar a vida pelo Reino. Precisamos acolher unicamente a vontade do Pai que se dá através de nossos superiores. O EU, MORREU. Renasce o novo homem em Cristo. Assim como Jesus ressurgiu dos mortos, nós ressurgimos, Nele, pessoas novas. Neste momento sepultamos nossa vontade, nosso querer, acolhendo o que Jesus quer de nós, porque não nos consagramos para nós mesmos, mas para o Senhor e assim devemos viver, somente PARA O SENHOR.

Quão significativo é esse momento, e corremos o risco de deixá-lo no esquecimento ou como um ato daquele dia. É triste e desagrada profundamente o Senhor ver religiosos brigando por cargo ou encargo, desrespeitando e desobedecendo aos seus superiores. Um religioso desobediente, teimoso, orgulhoso fere sua vocação e o coração de Deus. Acaba esquecendo o verdadeiro sentido da sua vocação. Com a consagração não somos mais senhores de nós mesmos. Somos escravos nas mãos do Senhor. E o escravo não tem vontade própria, faz tudo aquilo que seu Senhor pede. Assim deve ser o consagrado.

Jesus, nas aparições a Santa Faustina pediu muitas coisas. Mas sempre dizia: “Peça a tua superiora. Se ela autorizar, faça. Se ela não autorizar, estás dispensada”. A missão que os superiores recebem, vem de Deus. O Papa, os bispos, o Casante, o Delegado estão imbuídos do poder que o próprio Senhor os confia. Desobedecer a eles é desobedecer a Deus. Obedecer a eles, é obedecer a Deus e isso lhe agrada.

No Diário de Santa Faustina encontramos várias citações sobre a obediência e a desobediência. Considero oportuno trazer algumas delas: “Certa ocasião Jesus me disse: A alma desobediente se expõe a grandes desgraças; não progredirá na perfeição, nem na vida espiritual. Deus cumula generosamente a alma de graças, mas somente se ela for obediente” (113); “Compreendi que os esforços, ainda que sejam os maiores, se não tiverem o selo da obediência, não são agradáveis a Deus” (354); “Mergulhei na oração e rezei a penitência; então, de repente vi o Senhor, que me disse: ‘Minha filha, fica sabendo que Me dás maior glória por um ato de obediência do que por longas orações e mortificações’. Oh, como é bom viver sob a obediência, viver com a consciência de que tudo o que faço é agradável a Deus!” (894); “O demônio pode ocultar-se até sob o manto da humildade, mas não sabe vestir o manto da obediência” (939).

Aprendemos a obediência com o próprio Senhor. Ele mesmo reza: “Pai, se queres, afasta de mim este cálice; contudo, não seja feita a minha vontade, mas a tua" (Lc 22,42). No Pai Nosso rezamos “seja feita a vossa vontade”. Por isso, fazer a vontade de Deus é dever de todo batizado.

A identidade do consagrado está em Cristo. Ser outro Cristo, fazer o que Ele fez. É difícil morrer para nossas vontades e desejos, ainda mais no tempo de hoje em que se promove a todo custo o culto a subjetividade. A obediência é o caminho que nos configura a Cristo e é para isso que nos consagramos. Não somos mais donos de nós mesmos. O Senhor deve ter a total liberdade de nos usar como Ele quer. Nas palavras de São João Calábria: “Procuremos ser como trapos, como argila, como barro, sem cabeça” (02 de fevereiro de 1929). Quem acolhe isso e vive assim, é feliz, porque sabe que está cumprindo sua vocação. Está se configurando a Cristo, Servo obediente do Pai.

 MISSÃO

A Congregação Pobres Servos da Divina Providência tem uma missão geral e uma missão específica, assim definidas pelas nossas Constituições e aprovadas pela Igreja. Todos nós consagrados temos o dever de cumprir com essa missão. Não precisamos criar nada. Já temos o caminho seguro para nossa santificação, sendo servos obedientes e humildes que acolhem e vivem, cooperam onde o Senhor envia.

Vamos as Constituições:

A nossa missão geral consiste em promover a glória de Deus, tendendo de coração unânime e com ajuda fraterna e recíproca, à própria santificação, na prática das virtudes cristãs e dos conselhos evangélicos de castidade, pobreza e obediência” (4).

A missão específica dos Pobres Servos é a busca do Reino de Deus que se concretiza para nós no compromisso de avivar no mundo a fé e confiança em Deus, Pai de todos os homens, através do abandono total na sua Divina Providência, intensamente vivido e claramente testemunhado em todos os acontecimentos pessoais e comunitários e nos eventos históricos do mundo” (5).

Para que existimos? Para que Deus Pai quis a nossa Congregação? Para promover a sua glória. Facilmente nos esquecemos disso. Tudo o que somos, o que fazemos deve manifestar que somos filhos de Deus Pai. Ele nos usa como instrumentos em suas mãos. Atrelado a esse primeiro elemento, temos o segundo que nos indica como faremos isso, ou seja, na ajuda recíproca, buscando a própria santificação que passa pela prática das virtudes e dos conselhos evangélicos. Primeiramente mútua ajuda para não nos esquecermos daquilo que é o essencial.

São João Calábria assim escreve em 1938: “Queridos irmãos, pelo amor de Deus, vamos colocar todo o empenho possível: santifiquemo-nos para santificar, e nos santificaremos com a plena observância das nossas santas Regras, que de joelhos recomendo”. As Constituições não são textos defasados ou belamente escritos para ficarem impressos. São Caminho seguro de santificação reconhecido pela Santa Igreja.

Nossa salvação está condicionada a busca pessoal da santidade, assim escrevia em 1944: “Santifiquemo-nos a nós mesmos no espírito da santa vocação; assim teremos a certeza da salvação da nossa alma e nos tornaremos dignos de cooperar para a salvação dos nossos irmãos”. A santificação é um modelar-se ao Filho de Deus: “santifiquemo-nos primeiro a nós, modelando a nossa vida sobre a de nosso Senhor Jesus Cristo, sobre a vida dos Apóstolos e dos primeiros cristãos”. Não podemos exigir dos outros aquilo que não podemos dar. A santidade deve começar por cada um de nós. Assim ajudaremos os outros, a comunidade, a missão onde atuamos: “Santifiquemo-nos a nós mesmos primeiro, para depois santificar as almas, todas as almas”. Continua: “É preciso que nos santifiquemos e, santificando a nós mesmos, santificaremos a nossa Congregação, as almas que a divina Providência aproxima de nós!” Não podemos nos envergonhar de falar da santidade. Ao contrário, deveríamos falar sempre entre nós, com nossos colaboradores e assistidos.

Na compreensão de São João Calábria, a santidade é a alma da Obra: “Se não nos santificarmos, a Obra será um corpo sem alma” (1939). Se queremos colaborar nesta Obra, devemos ter como meta a santidade, do contrário, seremos empecilho para a ação de Deus: “Se não nos santificarmos, não faremos nada, estragaremos a Obra” (1946).

O número cinco das Constituições traz a missão específica confiada a nós Pobres Servos. O primeiro elemento que aparece é a “busca do Reino de Deus”. Esse pensamento foi tirado do Evangelho de São Mateus: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo” (6,33).

São João Calábria foi profundamente tocado por estas palavras. É o próprio Senhor que nos dá essa garantia. Se buscarmos construir seu Reino, Ele nos dará tudo. Estas palavras inspiram e fundamentam nosso Carisma: Confiança em Deus Pai Providente. É nesta certeza que devemos viver. É esta confiança que precisamos ter e promover nas pessoas. A busca do Reino passa primeiramente pela conformação da nossa vida com a vontade, o projeto, o sonho de Deus para cada um dos seus filhos e filhas. Não podemos pensar de forma materialista, onde receberemos os bens temporais e materiais se buscarmos o Reino de Deus. Buscar o Reino é primeiramente adentrar nele, porque ele foi inaugurado pelo próprio Cristo.

Adentrar nele é viver os valores deste Reino, como rezamos no Prefácio da Solenidade de Cristo Rei: “reino da verdade e da vida, reino da santidade e da graça, reino de justiça, do amor e da paz”. Aqui aparecem os elementos constitutivos do projeto de Deus para todos os seus filhos e filhas. Não coisas materiais, passageiras, mas elementos que nos fazem recordar que somos filhos amados por Deus e que Ele quer a nossa salvação, ou seja, que estejamos com Ele para sempre.

É claro que quando falamos de justiça precisamos lembrar de tantos injustiçados que sofrem as consequências de um mundo governado e habitado por pessoas que facilmente se esquecem de Deus. Os sofredores são os que mais se identificam com Cristo, Servo sofredor. Junto com o conforto do corpo, precisamos oferecer o conforto para a alma. O corpo de todos ruirá um dia e a alma deve ser preparada para o encontro definitivo com Deus. Muitos pobres e sofredores chegam até as nossas portas esperando o pão e desejando a salvação. Quem falará ou manifestará o amor de Deus se nós não o fizermos? Muitos fazem inspirados pelo próprio Senhor. Mas nós deveríamos ser os especialistas, ou seja, os que melhor falam, sobretudo por gestos, do amor misericordioso de Deus.

Nossas Constituições nos dizem ainda que temos o “compromisso de avivar no mundo a fé e confiança em Deus” (5). Antes de avivar a fé nos outros, precisamos que a nossa esteja fortalecida. Se assim não for, facilmente sentiremos o cansaço e o desânimo. Quando fazemos caridade pensando no reconhecimento e aplauso, estamos nos desvirtuando do caminho proposto pelo Senhor. Por isso Jesus nos alerta: “Eu sou a videira e vós os ramos. Aquele que permaneceu em mim, e eu nele, esse produz muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5). Quando estamos unidos a Cristo reconhecemos que somos instrumentos e não autores do bem. São João Calábria inclusive recordava que a Obra, que é de Deus, “não precisa de ninguém, aliás, precisa de quem, com fé, com amor, se abandona em Deus e na sua divina Providência” (1950).

São João Calábria, como já citamos acima, nos pedia com insistência que não abandonássemos as práticas de piedade e sobretudo a Santa Missa, Adoração, Meditação. Em um mundo com tantas agitações, facilmente podemos nos perder e nos esvaziar. Em 1943 escrevia: “Deixem tudo, mas não deixem as práticas de piedade; isso seria a ruína de vocês e a dos outros”. E ainda: “Quem não reza, o Senhor o deixa entregue a si mesmo e nós, sem a ajuda de Deus, tomaremos sem dúvida o caminho da perdição. Ação, sem oração, é uma profanação” (Retornemos ao Evangelho, 30).

Precisamos ajudar os necessitados, mas também olhar porque eles chegaram a essa situação deplorável. As injustiças precisam ser denunciadas e suprimidas. Não podemos compactuar com sistemas de opressão que continuam deixando muitos filhos na margem. Seremos profetas se estivermos em profunda sintonia com o Senhor.

CONCLUSÃO

A vocação é nobre porque nasceu no coração de Deus; a nossa identidade exige uma configuração contínua com a pessoa de Jesus Cristo. Só assim conseguiremos exercer bem a belíssima, grande e sempre atual missão que o Senhor confia a Obra e a nós, seus servos.

O fato de pertencermos a Família Calabriana, como consagrados, não nos torna melhores que os outros. Somos, certamente, os mais necessitados da Misericórdia do Senhor. E se Ele nos chamou a fazer parte desta Obra, é porque Ele quer nos salvar por este caminho. Quanta responsabilidade recai sobre nós. São João Calábria escreveu em 1941: “Ou nos renovamos, ou pereceremos!” Podemos dizer hoje, santifiquemo-nos ou pereceremos.

Louvemos ao Senhor que inspirou, sustenta e conduz esta Obra e a cada um de nós. O Pobre Servo, homem de fé, obediente ao Senhor, vivendo a santidade, estende a mão a todos sabendo que cada rosto é uma alma para ser salva.

 

19 de abril de 2022

Homilia do Papa Francisco Santa Missa Crismal

 


HOMILIA DO PAPA FRANCISCO

SANTA MISSA CRISMAL

Basílica de São Pedro

Quinta-feira Santa, 14 de abril de 2022

Na leitura que ouvimos do profeta Isaías, o Senhor faz uma promessa cheia de esperança que nos diz intimamente respeito: «Vós sereis chamados “Sacerdotes do Senhor”, e nomeados “Ministros do nosso Deus”. (...) Dar-lhes-ei fielmente a sua recompensa e farei com eles uma aliança eterna» ( Is 61, 6.8). Ser sacerdote é uma graça, queridos irmãos, uma graça muito grande, que não se destina primariamente a nós, mas aos fiéis [1]; e, para o nosso povo, é um grande dom que o Senhor escolha, dentre o seu rebanho, alguns que se ocupem das suas ovelhas, de forma exclusiva, como pais e pastores. É o próprio Senhor que dá a recompensa ao sacerdote: «dar-lhes-ei fielmente a sua recompensa ( Is 61, 8). E sabemos que Ele é bom pagador, embora tenha as suas peculiaridades como a de pagar primeiro os últimos e, depois, os primeiros, segundo o seu estilo.

A leitura do livro do Apocalipse diz-nos qual é a recompensa do Senhor. É o seu Amor e o perdão incondicional dos nossos pecados com o preço do seu sangue derramado na Cruz: Aquele «que nos ama e nos purifica dos nossos pecados com o seu sangue, e fez de nós um reino, sacerdotes para Deus e seu Pai» (Ap 1, 5-6). Não há recompensa maior do que a amizade com Jesus (não o esqueçamos). Não há paz maior do que o seu perdão (isto, sabemo-lo nós todos). Não há preço mais elevado do que o seu precioso Sangue: não permitamos que seja aviltado com uma conduta indigna.

Queridos irmãos sacerdotes, se lermos tudo isto com o coração, veremos que se trata de convites do Senhor para Lhe sermos fiéis, fiéis à sua Aliança, para nos deixarmos amar, nos deixarmos perdoar; são convites não só para nosso próprio proveito, mas também para podermos assim servir, com uma consciência pura, o santo povo fiel de Deus. Este povo merece-o, e também tem necessidade. O Evangelho de Lucas conta que Jesus, depois de ter lido a passagem do profeta Isaías diante do seu povo, Se sentou; e acrescenta: todos «tinham os olhos fixos n’Ele» (Lc 4, 20). Também o Apocalipse nos fala hoje de olhos fixos em Jesus, da atração irresistível do Senhor crucificado e ressuscitado que nos leva a reconhecê-Lo e adorá-Lo: «Olhai; Ele vem no meio das nuvens! Todos os olhos O verão, até mesmo os que O trespassaram. Todas as nações da terra se lamentarão por causa d’Ele. Sim. Amém!» (Ap 1,7). A graça final, quando o Senhor ressuscitado voltar, será a graça de O reconhecermos de forma imediata: vê-Lo-emos trespassado, reconheceremos que é Ele e também quem somos nós: pecadores, e nada mais!

«Fixar os olhos em Jesus» é uma graça que devemos cultivar como sacerdotes. No fim do dia, é bom olhar para o Senhor e deixar que Ele contemple o nosso coração, juntamente com o coração das pessoas que encontramos. Não se trata de contabilizar os pecados, mas duma contemplação amorosa em que vemos o nosso dia com o olhar de Jesus repassando assim as graças do dia, os dons e tudo o que Ele fez por nós a fim de Lhe agradecermos. E mostramos-Lhe também as nossas tentações, para as identificarmos e rejeitarmos. Como vemos, trata-se de compreender aquilo que é agradável ao Senhor e o que Ele quer de nós, aqui e agora, na nossa história atual.

E talvez, se nos mantivermos sob o seu olhar cheio de bondade, haverá também da parte d’Ele um sinal para Lhe mostrarmos os nossos ídolos: aqueles ídolos que escondemos, como Raquel, sob as dobras do nosso manto (cf. Gn 31, 34-35). Deixar que o Senhor veja os nossos ídolos escondidos. Todos nós os temos, todos! E deixar que o Senhor veja os nossos ídolos escondidos torna-nos fortes face a eles e tira-lhes o poder.

O olhar do Senhor faz-nos ver que neles, na realidade, glorificamo-nos a nós mesmos [2], porque, naquele espaço tomado por nós como se fosse exclusivo, intromete-se o diabo, acrescentando um elemento tipicamente maligno: faz com que não só nos «comprazamos» nós próprios dando rédea solta a uma paixão ou cultivando outra, mas leva-nos também a substituir com eles, com esses ídolos escondidos, a presença das Pessoas divinas, a presença do Pai, do Filho e do Espírito, que moram dentro de nós. É algo que acontece efetivamente. Embora uma pessoa diga a si mesma que distingue perfeitamente o que é um ídolo e quem é Deus, na prática estamos tirando espaço à Trindade para o dar ao demônio, numa espécie de adoração indireta: a de quem o esconde, mas continuamente escuta as suas sugestões e consome os seus produtos, de tal forma que no final não sobra sequer um cantinho para Deus. É que o Senhor deixa fazer, afasta-Se lentamente. Além disso existem os demônios «educados» (de que já vos falei uma vez); acerca deles, disse Jesus que são piores do que o outro que Ele tinha já expulso. Estes são «educados», tocam a campainha, instalam-se e pouco a pouco apoderam-se da casa. Devemos estar atentos; são os nossos ídolos.

É que os ídolos têm qualquer coisa (um elemento) de pessoal. Quando não os desmascaramos, quando não deixamos que Jesus nos faça ver que, errando, neles estamos a procurar-nos a nós mesmos sem motivo, então deixamos um espaço onde se intromete o Maligno. Devemos recordar-nos que o demônio exige que façamos a sua vontade e o sirvamos… Mas nem sempre pede que o sirvamos e adoremos continuamente; sabe como levar-nos. É um grande diplomático; basta-lhe receber a adoração de vez em quando para lhe demonstrar que é o nosso verdadeiro senhor e que até se sente deus na nossa vida e no nosso coração.

Dito isto, gostaria, nesta Missa Crismal, de partilhar convosco três espaços de idolatria escondida nos quais o Maligno se serve dos seus ídolos para nos enfraquecer na nossa vocação de pastores e, pouco a pouco, separar-nos da presença benéfica e amorosa de Jesus, do Espírito e do Pai.

Um primeiro espaço de idolatria escondida abre-se onde há mundanidade espiritual, que é «uma proposta de vida, é uma cultura, uma cultura do efêmero, uma cultura da aparência, uma cultura da maquilhagem» [3]. O seu critério é o triunfalismo, um triunfalismo sem Cruz. E Jesus reza para que o Pai nos defenda desta cultura da mundanidade. Esta tentação duma glória sem Cruz vai contra a pessoa do Senhor, vai contra Jesus que Se humilha na Encarnação e que, como sinal de contradição, é o único remédio contra todo o ídolo. Ser pobre com Cristo pobre e «porque Cristo escolheu a pobreza» é a lógica do Amor; e não outra. No texto evangélico de hoje, vemos como o Senhor Se apresenta na sua humilde sinagoga e na sua pequena aldeia – a de toda a vida – para proferir o mesmo Anúncio que fará no final da história, quando vier na sua Glória, rodeado pelos anjos. E os nossos olhos devem estar fixos em Cristo, na história de Jesus aqui e agora comigo, como estarão na parusia. A mundanidade de andar à procura da própria glória rouba-nos a presença de Jesus humilde e humilhado, Senhor próximo de todos, Cristo sofredor com todos os que sofrem, adorado pelo nosso povo que sabe quais são os seus verdadeiros amigos. Um sacerdote mundano não passa de um pagão clericalizado. Repito: um sacerdote mundano não passa de um pagão clericalizado.

Outro espaço de idolatria escondida cria raízes onde se dá a primazia ao pragmatismo dos números. Aqueles que possuem este ídolo escondido, reconhecem-se pelo seu amor às estatísticas, aquelas que podem apagar qualquer traço pessoal no debate e dar a proeminência às maiorias, que passam a ser, em última análise, o critério de discernimento. Está mal! Mas isto não pode ser a única maneira de proceder nem o único critério na Igreja de Cristo. As pessoas não se podem reduzir a números, e Deus dá o Espírito «sem medida» (Jo 3, 34). Na realidade, neste fascínio pelos números, é a nós mesmos que nos procuramos, comprazendo-nos no controle que nos dá esta lógica, que não se interessa dos rostos, e não é a lógica do amor; ama os números. Uma caraterística dos grandes santos é que sabem retirar-se para deixar todo o espaço a Deus. Este retirar-se, este esquecer-se de si mesmo e querer ser esquecido por todos os outros é a caraterística do Espírito, o Qual carece de imagem; o Espírito não tem imagem própria, simplesmente porque todo Ele é Amor, que faz brilhar a imagem do Filho e, nesta, a do Pai. A substituição da sua Pessoa, que já de por si gosta de «não aparecer» (porque não tem imagem!), é aquilo que visa o ídolo dos números, que faz com que tudo «apareça», mas de modo abstrato e contabilizado, sem encarnação.

Um terceiro espaço de idolatria escondida, emparentado com o anterior, é aquele que se abre com o funcionalismo, um ambiente sedutor em que muitos, «mais do que pelo percurso, se entusiasmam com a tabela de marcha». A mentalidade funcionalista não tolera o mistério, aposta na eficácia. Pouco a pouco, este ídolo vai substituindo em nós a presença do Pai. O primeiro ídolo substitui a presença do Filho; o segundo ídolo, a do Espírito; e este, a presença do Pai. O nosso Pai é o Criador: não alguém que faz apenas «funcionar» as coisas, mas Alguém que «cria» como Pai, com ternura, ocupando-Se das suas criaturas e agindo para que o homem seja mais livre. O funcionalista não sabe alegrar-se com as graças que o Espírito derrama sobre o seu povo e das quais poderia também «alimentar-se» como trabalhador que recebe a sua recompensa; mas o sacerdote com mentalidade funcionalista tem o seu alimento que é o próprio «eu». No funcionalismo, deixamos de lado a adoração do Pai nas pequenas e grandes coisas da nossa vida e comprazemo-nos na eficácia dos nossos programas, como fez David, quando, tentado por Satanás, se obstinou em realizar o recenseamento (cf. 1 Cro 21, 1). Estão enamorados pelo plano de rota, pelo plano do caminho, não pelo caminho.

Nestes dois últimos espaços de idolatria escondida (pragmatismo dos números e funcionalismo) substituímos a esperança, que é o espaço do encontro com Deus, pela constatação empírica. Trata-se duma atitude de vanglória por parte do pastor, uma atitude que desintegra a união do seu povo com Deus e plasma um novo ídolo baseado em números e programas: o ídolo «o meu poder, o nosso poder» [4], o nosso programa, os nossos números, os nossos planos pastorais. Esconder estes ídolos (imitando a atitude de Raquel) e não os saber desmascarar na vida quotidiana prejudica a fidelidade da nossa aliança sacerdotal e resfria a nossa relação pessoal com o Senhor. Poderia alguém pensar: mas afinal o que é que quer este Bispo que hoje, em vez de falar de Jesus, nos fala dos ídolos?

Queridos irmãos, Jesus é o único caminho para não nos enganarmos no conhecimento do que sentimos e para onde nos leva o nosso coração; é o único caminho para um bom discernimento, confrontando-nos dia-a-dia com Jesus como se Ele estivesse também hoje sentado na nossa igreja paroquial e nos dissesse que hoje se cumpriu tudo o que acabamos de ouvir. Sendo sinal de contradição (nem sempre é sinônimo de algo cruento ou duro, pois a misericórdia é sinal de contradição como o é, e muito mais, a ternura), Jesus Cristo faz com que estes ídolos se manifestem, se veja a sua presença, as suas raízes e o seu funcionamento, a fim de que o Senhor os possa destruir. Esta é a proposta: dar espaço ao Senhor, para que Ele possa destruir os nossos ídolos escondidos. E devemos ter em mente e estar atento para que não renasça a cizânia destes ídolos que soubemos esconder nas dobras do nosso coração.

Gostaria de concluir pedindo a São José, pai castíssimo e sem ídolos escondidos, que nos liberte de toda a avidez de possuir, pois esta – a avidez de possuir – é o terreno fecundo onde crescem estes ídolos. E que nos alcance também a graça de não desistir na árdua tarefa de discernir estes ídolos que, com grande frequência, escondemos ou se escondem. E pedimos ainda a São José que, quando duvidarmos sobre como fazer melhor as coisas, interceda por nós a fim de que o Espírito nos ilumine o discernimento, como iluminou o dele quando esteve tentado a deixar Maria «em segredo» (lathra), para que, com nobreza de coração, saibamos subordinar à caridade o que aprendemos com a lei [5].

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 [1] Pois o sacerdócio ministerial está ao serviço do sacerdócio comum. O Senhor escolheu alguns para «exercer oficialmente o ofício sacerdotal em nome de Cristo a favor dos homens» (Conc. Ecum. Vat. II, Decr.  Presbyterorum ordinis, 2; cf. Const. dogm.  Lumen gentium, 10). «Com efeito, os ministros que têm o poder sagrado servem os seus irmãos» ( Lumen gentium, 18).

[2] Cf. Papa Francisco, Catequese, na Audiência Geral de 1 de agosto de 2018.

[3] Papa Francisco,  Homilia na Missa em Santa Marta, 16 de maio de 2020.

[4] J. M. Bergoglio, Meditações para religiosos (Mensajero - Bilbau 2014), 145.

[5] Cf. Papa Francisco, Carta apost. Patris corde, n.º 4, nota 18.

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10 de abril de 2022

Homilia do Papa Francisco no Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor

Praça São Pedro

Domingo, 10 de abril de 2022

No calvário, confrontam-se duas mentalidades; vemos, no Evangelho, como as palavras de Jesus crucificado se contrapõem às dos seus adversários. Estes vão repetindo, como se fosse um refrão, «salva-te a ti mesmo». Dizem-no os chefes: «Salve-se a si mesmo, se é o Messias de Deus, o Eleito» (Lc 23, 35). Proferem-no os soldados: «Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo» (23, 37). E também um dos malfeitores, tendo ouvido tais palavras, repete-as: «Não és tu o Messias? Salva-te a ti mesmo» (23, 39). Salvar-se a si mesmo, olhar por si mesmo, pensar em si mesmo; não nos outros, mas apenas na própria saúde, no próprio sucesso, nos próprios interesses; ter, poder e aparecer. Salva-te a ti mesmo: é o refrão da humanidade, que crucificou o Senhor. Reflitamos nisto.

Mas, à mentalidade do «eu», opõe-se a de Deus; o salva-te a ti mesmo confronta-se com o Salvador que Se oferece a Si mesmo. No Calvário, segundo o Evangelho de hoje, também Jesus toma a palavra três vezes como os seus adversários (cf. 23, 34.43.46). Em nenhum dos casos, porém, reivindica qualquer coisa para Si mesmo; na verdade, nem sequer Se defende ou justifica a Si mesmo. Reza ao Pai e oferece misericórdia ao bom ladrão. Particularmente uma das suas expressões marca a diferença do salva-te a ti mesmo: «Perdoa-lhes, Pai» (23, 34).

Detenhamo-nos nestas palavras. Quando são pronunciadas pelo Senhor? Num momento específico: durante a crucifixão, quando sente os cravos perfurar-Lhe os pulsos e os pés. Tentemos imaginar a dor lancinante que isso provocava. Lá, na dor física mais aguda da Paixão, Cristo pede perdão para quem O está perfurando. Naqueles momentos, apetecer-nos-ia apenas gritar toda a nossa raiva e sofrimento; Jesus, ao contrário, diz: Perdoa-lhes, Pai. Diversamente doutros mártires referidos na Bíblia (cf. 2 Mac 7, 18-19), não repreende os algozes nem ameaça castigos em nome de Deus, mas reza pelos ímpios. Cravado no patíbulo da humilhação, aumenta a intensidade do dom, que se torna “perdão”.

Irmãos, irmãs! Pensemos que Deus procede assim também conosco: quando Lhe provocamos dor com as nossas ações, Ele sofre e o único desejo que tem é poder perdoar-nos. Para nos darmos conta disto, contemplemos o Crucificado. É das suas chagas, daqueles orifícios de dor causados pelos nossos cravos que brota o perdão. Fixemos Jesus na cruz e pensemos que nunca recebemos palavras melhores: Perdoa-lhes, Pai. Fixemos Jesus na cruz e vejamos que nunca recebemos um olhar mais terno e compassivo. Fixemos Jesus na cruz e convençamo-nos de que nunca recebemos um abraço mais amoroso. Fixemos o Crucificado e digamos: «Obrigado, Jesus! Amas-me e perdoas-me sempre, mesmo quando me custa amar e perdoar a mim mesmo».

Lá, enquanto é crucificado, no momento mais difícil, Jesus vive o seu mandamento mais difícil: o amor aos inimigos. Pensemos em alguém que nos feriu, ofendeu, decepcionou; em alguém que nos irritou, não nos compreendeu ou não foi um bom exemplo. Quanto tempo nos demoramos a pensar em quem nos fez mal! Como também a olhar para nós mesmos e a lamuriar-nos pelas feridas que nos infligiram os outros, a vida ou a história. Hoje Jesus ensina-nos a não perdermos nisso, mas a reagir, a romper o círculo vicioso do mal e dos queixumes, a reagir aos cravos da vida com o amor, aos golpes do ódio com a carícia do perdão. Mas nós, discípulos de Jesus, seguimos o Mestre ou o nosso instinto rancoroso? É uma pergunta que devemos colocar a nós mesmos: seguimos o Mestre ou o nosso instinto rancoroso? Se queremos verificar a nossa pertença a Cristo, vejamos como nos comportamos com quem nos feriu. O Senhor pede-nos para responder, não como nos apetece a nós nem como fazem todos, mas como Ele procede conosco. Pede-nos para quebrar a corrente do «amo-te se me amares; sou teu amigo, se fores meu amigo; ajudo-te se me ajudares». Assim não! Em vez disso, compaixão e misericórdia para com todos, porque Deus vê um filho em cada um. Não nos divide em bons e maus, em amigos e inimigos. Somos nós que o fazemos, fazendo-O sofrer. Para Ele, todos somos filhos amados, que deseja abraçar e perdoar. Vemos isto também naquele convite para o banquete de núpcias do filho: aquele senhor envia os seus servos à encruzilhada dos caminhos, dizendo-lhes «tragam todos, brancos, pretos, bons e maus, todos, sãos e doentes, todos...» ( cf. Mt 22, 9-10). O amor de Jesus é para todos; nisto, não há privilégios. Todos. O privilégio de cada um de nós é ser amado, perdoado.

Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem. O Evangelho sublinha que Jesus «dizia» (23, 34) isso, isto é, não o dissera uma vez por todas no momento da crucifixão, mas passou as horas na cruz com estas palavras nos lábios e no coração. Deus não Se cansa de perdoar. Devemos compreender isto… e não só com a mente, mas compreendê-lo com o coração: Deus não Se cansa de perdoar, somos nós que nos cansamos de Lhe pedir perdão, mas Ele nunca Se cansa de perdoar. Ele não suporta até certo ponto para depois mudar de ideias, como nós somos tentados a fazer. Jesus – ensina o Evangelho de Lucas – veio ao mundo para nos trazer o perdão dos nossos pecados (cf. Lc 1, 77) e, no fim, deixou-nos esta ordem concreta: pregar a todos, no seu nome, o perdão dos pecados (cf. Lc 24, 47). Irmãos e irmãs, não nos cansemos do perdão de Deus: nós, sacerdotes, de o ministrar; e, cada cristão, de o receber e testemunhar. Não nos cansemos do perdão de Deus.

Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem. Notemos mais uma coisa. Jesus não só implora o perdão, mas diz também o motivo: perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. Como é possível? Os seus opositores tinham premeditado a morte d’Ele, organizado a sua captura, os julgamentos e agora estão lá, no Calvário, para assistir ao seu fim... e, todavia, Cristo justifica aqueles violentos, porque não sabem. É assim que Jesus Se comporta conosco: faz-Se nosso advogado. Não Se coloca contra nós, mas por nós contra o nosso pecado. E é interessante o argumento que usa: porque não sabem, ou seja, aquela ignorância do coração que temos todos nós pecadores. Quando se usa violência, nada mais se sabe sobre Deus, que é Pai, nem sobre os outros, que são irmãos. Esquece-se a razão por que se está no mundo e chega-se a realizar absurdas crueldades. Vemo-lo na loucura da guerra, onde se torna a crucificar Cristo. Sim, Cristo é pregado na cruz mais uma vez nas mães que choram a morte injusta de maridos e filhos. É crucificado nos refugiados que fogem das bombas com os meninos no braço. É crucificado nos idosos deixados sozinhos a morrer, nos jovens privados de futuro, nos soldados mandados a matar os seus irmãos. Hoje, Cristo está crucificado aí.

Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem. Muitos ouvem esta frase incrível; mas apenas um a acolhe. É um malfeitor, crucificado ao lado de Jesus. Podemos pensar que a misericórdia de Cristo suscitou nele uma última esperança e o levou a pronunciar estas palavras: «Jesus, lembra-te de mim» (Lc 23, 42), como se dissesse: «Todos se esqueceram de mim, mas Tu pensas até naqueles que Te crucificam. Então poderia haver também para mim um lugar contigo?» O bom ladrão acolhe Deus, quando a vida dele está prestes a terminar e, assim, a sua vida recomeça; no inferno do mundo, vê abrir-se o Paraíso: «Hoje estarás comigo no Paraíso» (23, 43). Eis o prodígio do perdão de Deus, que transforma o último pedido dum condenado à morte na primeira canonização da história.

Irmãos, irmãs! Nesta semana, abramo-nos à certeza de que Deus pode perdoar todo o pecado. Deus tudo perdoa; pode perdoar todo o afastamento, mudar em dança todo o lamento (cf. Sal 30,12); a certeza de que, com Cristo, há sempre lugar para cada um; a certeza de que, com Jesus, a vida nunca acaba. Nunca é tarde demais; com Deus, sempre se pode voltar a viver. Coragem! Caminhemos para a Páscoa com o seu perdão. Porque Cristo intercede continuamente por nós junto do Pai (cf. Heb 7, 25) e, olhando para o nosso mundo violento e , o nosso mundo ferido, não Se cansa de repetir (e em silêncio, no coração, repitamos com Ele): Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem.

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26 de março de 2022

ATO DE CONSAGRAÇÃO AO IMACULADO CORAÇÃO DE MARIA (Papa Francisco, 25/03/2022)


Ó Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe, recorremos a Vós nesta hora de tribulação. Vós sois Mãe, amais-nos e conheceis-nos: de quanto temos no coração, nada Vos é oculto. Mãe de misericórdia, muitas vezes experimentamos a vossa ternura providente, a vossa presença que faz voltar a paz, porque sempre nos guiais para Jesus, Príncipe da paz.

Mas perdemos o caminho da paz. Esquecemos a lição das tragédias do século passado, o sacrifício de milhões de mortos nas guerras mundiais. Descuidamos os compromissos assumidos como Comunidade das Nações e estamos a atraiçoar os sonhos de paz dos povos e as esperanças dos jovens. Adoecemos de ganância, fechamo-nos em interesses nacionalistas, deixamo-nos ressequir pela indiferença e paralisar pelo egoísmo. Preferimos ignorar Deus, conviver com as nossas falsidades, alimentar a agressividade, suprimir vidas e acumular armas, esquecendo-nos que somos guardiões do nosso próximo e da própria casa comum. Dilaceramos com a guerra o jardim da Terra, ferimos com o pecado o coração do nosso Pai, que nos quer irmãos e irmãs. Tornamo-nos indiferentes a todos e a tudo, exceto a nós mesmos. E, com vergonha, dizemos: perdoai-nos, Senhor!

Na miséria do pecado, das nossas fadigas e fragilidades, no mistério de iniquidade do mal e da guerra, Vós, Mãe Santa, lembrai-nos que Deus não nos abandona, mas continua a olhar-nos com amor, desejoso de nos perdoar e levantar novamente. Foi Ele que Vos deu a nós e colocou no vosso Imaculado Coração um refúgio para a Igreja e para a humanidade. Por bondade divina, estais connosco e conduzis-nos com ternura mesmo nos transes mais apertados da história.

Por isso recorremos a Vós, batemos à porta do vosso Coração, nós os vossos queridos filhos que não Vos cansais de visitar em todo o tempo e convidar à conversão. Nesta hora escura, vinde socorrer-nos e consolar-nos. Repeti a cada um de nós: «Não estou porventura aqui Eu, que sou tua mãe?» Vós sabeis como desfazer os emaranhados do nosso coração e desatar os nós do nosso tempo. Repomos a nossa confiança em Vós. Temos a certeza de que Vós, especialmente no momento da prova, não desprezais as nossas súplicas e vindes em nosso auxílio.

Assim fizestes em Caná da Galileia, quando apressastes a hora da intervenção de Jesus e introduzistes no mundo o seu primeiro sinal. Quando a festa se mudara em tristeza, dissestes-Lhe: «Não têm vinho!» (Jo 2, 3). Ó Mãe, repeti-o mais uma vez a Deus, porque hoje esgotamos o vinho da esperança, desvaneceu-se a alegria, diluiu-se a fraternidade. Perdemos a humanidade, malbaratamos a paz. Tornamo-nos capazes de toda a violência e destruição. Temos necessidade urgente da vossa intervenção materna.

Por isso acolhei, ó Mãe, esta nossa súplica:

Vós, estrela do mar, não nos deixeis naufragar na tempestade da guerra;

Vós, arca da nova aliança, inspirai projetos e caminhos de reconciliação;

Vós, «terra do Céu», trazei de volta ao mundo a concórdia de Deus;

Apagai o ódio, acalmai a vingança, ensinai-nos o perdão;

Libertai-nos da guerra, preservai o mundo da ameaça nuclear;

Rainha do Rosário, despertai em nós a necessidade de rezar e amar;

Rainha da família humana, mostrai aos povos o caminho da fraternidade;

Rainha da paz, alcançai a paz para o mundo.

O vosso pranto, ó Mãe, comova os nossos corações endurecidos. As lágrimas, que por nós derramastes, façam reflorescer este vale que o nosso ódio secou. E, enquanto o rumor das armas não se cala, que a vossa oração nos predisponha para a paz. As vossas mãos maternas acariciem quantos sofrem e fogem sob o peso das bombas. O vosso abraço materno console quantos são obrigados a deixar as suas casas e o seu país. Que o vosso doloroso Coração nos mova à compaixão e estimule a abrir as portas e cuidar da humanidade ferida e descartada.

Santa Mãe de Deus, enquanto estáveis ao pé da cruz, Jesus, ao ver o discípulo junto de Vós, disse-Vos: «Eis o teu filho!» (Jo 19, 26). Assim Vos confiou cada um de nós. Depois disse ao discípulo, a cada um de nós: «Eis a tua mãe!» (19, 27). Mãe, agora queremos acolher-Vos na nossa vida e na nossa história. Nesta hora, a humanidade, exausta e transtornada, está ao pé da cruz convosco. E tem necessidade de se confiar a Vós, de se consagrar a Cristo por vosso intermédio. O povo ucraniano e o povo russo, que Vos veneram com amor, recorrem a Vós, enquanto o vosso Coração palpita por eles e por todos os povos ceifados pela guerra, a fome, a injustiça e a miséria.

Por isso nós, ó Mãe de Deus e nossa, solenemente confiamos e consagramos ao vosso Imaculado Coração nós mesmos, a Igreja e a humanidade inteira, de modo especial a Rússia e a Ucrânia. Acolhei este nosso ato que realizamos com confiança e amor, fazei que cesse a guerra, providenciai ao mundo a paz. O sim que brotou do vosso Coração abriu as portas da história ao Príncipe da Paz; confiamos que mais uma vez, por meio do vosso Coração, virá a paz. Assim a Vós consagramos o futuro da família humana inteira, as necessidades e os anseios dos povos, as angústias e as esperanças do mundo.

Por vosso intermédio, derrame-se sobre a Terra a Misericórdia divina e o doce palpitar da paz volte a marcar as nossas jornadas. Mulher do sim, sobre Quem desceu o Espírito Santo, trazei de volta ao nosso meio a harmonia de Deus. Dessedentai a aridez do nosso coração, Vós que «sois fonte viva de esperança». Tecestes a humanidade para Jesus, fazei de nós artesãos de comunhão. Caminhastes pelas nossas estradas, guiai-nos pelas sendas da paz. Amém.

Foto: Papa Francisco reza diante da imagem de Nossa Senhora e consagra a humanidade, em especial Rússia e Ucrânia / Foto: Reprodução Vatican Media

22 de março de 2022

Oração a São José de Leão XIII

IMAGE: VaticanNews
 

“A vós, São José, recorremos em nossa tribulação e, depois de ter implorado o auxílio de Vossa Santíssima Esposa, cheios de confiança solicitamos o vosso patrocínio. Por esse laço sagrado de caridade, que os uniu à Virgem Imaculada, Mãe de Deus, pelo amor paternal que tivestes ao Menino Jesus, ardentemente vos suplicamos que lanceis um olhar benigno para a herança que Jesus conquistou com seu sangue,e nos socorrais em nossas necessidades com o vosso auxílio e poder. Protegei, ó Guarda providente da Divina Família, a raça eleita de Jesus Cristo. Afastai para longe de nós, ó Pai amantíssimo, a peste do erro e do vício. Assisti-nos do alto do céu, ó nosso fortíssimo sustentáculo, na luta contra o poder das trevas; assim como outrora salvastes da morte a vida do Menino Jesus, assim também defendei agora a Santa Igreja de Deus contra as ciladas de seus inimigos e contra toda adversidade. Amparai a cada um de nós com o vosso constante patrocínio, a fim de que, a vosso exemplo, e sustentados com vosso auxílio, possamos viver virtuosamente, morrer piedosamente e obter no céu a eterna bem-aventurança.”

(Leão XIII – Oração a São José – Encíclica Quamquam Pluries - 1889)

11 de janeiro de 2022

Mensagem para o Dia Mundial das Missões 2022

Foto: Papa Francisco na Missa do Dia Mundial das Missões 2019 - VaticanNews


MENSAGEM DE SUA SANTIDADE
PAPA FRANCISCO
PARA O DIA MUNDIAL DAS MISSÕES DE 2022

[23 de outubro de 2022]

«Sereis minhas testemunhas» (At 1, 8)

Queridos irmãos e irmãs!

Estas palavras encontram-se no último colóquio de Jesus ressuscitado com os seus discípulos, antes de subir ao Céu, como se descreve nos Atos dos Apóstolos: «Recebereis a força do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo» (1, 8). E constituem também o tema do Dia Mundial das Missões de 2022, que, como sempre, nos ajuda a viver o facto de a Igreja ser, por sua natureza, missionária. Neste ano, o citado Dia proporciona-nos a ocasião de comemorar algumas efemérides relevantes para a vida e missão da Igreja: a fundação, há 400 anos, da Congregação de Propaganda Fide – hoje designada Congregação para a Evangelização dos Povos – e, há 200 anos, da «Obra da Propagação da Fé; esta, juntamente com a Obra da Santa Infância e a Obra de São Pedro Apóstolo, há 100 anos foram reconhecidas como «Pontifícias».

Detenhamo-nos nestas três expressões-chave que resumem os três alicerces da vida e da missão dos discípulos: «Sereis minhas testemunhas», «até aos confins do mundo» e «recebereis a força do Espírito Santo».

1. «Sereis minhas testemunhas» – A chamada de todos os cristãos a testemunhar Cristo

É o ponto central, o coração do ensinamento de Jesus aos discípulos em ordem à sua missão no mundo. Todos os discípulos serão testemunhas de Jesus, graças ao Espírito Santo que vão receber: será a graça a constituí-los como tais, por todo o lado aonde forem, onde quer que estejam. Tal como Cristo é o primeiro enviado, ou seja, missionário do Pai (cf. Jo 20, 21) e, enquanto tal, a sua «Testemunha fiel» (Ap 1, 5), assim também todo o cristão é chamado a ser missionário e testemunha de Cristo. E a Igreja, comunidade dos discípulos de Cristo, não tem outra missão senão a de evangelizar o mundo, dando testemunho de Cristo. A identidade da Igreja é evangelizar.

Uma releitura de conjunto mais aprofundada esclarece-nos alguns aspetos sempre atuais da missão confiada por Cristo aos discípulos: «Sereis minhas testemunhas». A forma plural destaca o caráter comunitário-eclesial da chamada missionária dos discípulos. Todo o batizado é chamado à missão na Igreja e por mandato da Igreja: por isso a missão realiza-se em conjunto, não individualmente: em comunhão com a comunidade eclesial e não por iniciativa própria. E ainda que alguém, numa situação muito particular, leve avante a missão evangelizadora sozinho, realiza-a e deve realizá-la sempre em comunhão com a Igreja que o enviou. Como ensina São Paulo VI, na Exortação apostólica Evangelii nuntiandi (um documento de que muito gosto), «evangelizar não é, para quem quer que seja, um ato individual e isolado, mas profundamente eclesial. Assim, quando o mais obscuro dos pregadores, dos catequistas ou dos pastores, no rincão mais remoto, prega o Evangelho, reúne a sua pequena comunidade ou administra um Sacramento, mesmo sozinho, ele perfaz um ato de Igreja e o seu gesto está certamente conexo, por relações institucionais, como também por vínculos invisíveis e por raízes recônditas da ordem da graça, à atividade evangelizadora de toda a Igreja» (n.º 60). Com efeito, não foi por acaso que o Senhor Jesus mandou os seus discípulos em missão dois a dois; o testemunho prestado pelos cristãos a Cristo tem caráter sobretudo comunitário. Daí a importância essencial da presença duma comunidade, mesmo pequena, na realização da missão.

Em segundo lugar, é pedido aos discípulos para construírem a sua vida pessoal em chave de missão: são enviados por Jesus ao mundo não só para fazer a missão, mas também e sobretudo para viver a missão que lhes foi confiada; não só para dar testemunho, mas também e sobretudo para ser testemunhas de Cristo. Assim o diz, com palavras verdadeiramente comoventes, o apóstolo Paulo: «Trazemos sempre no nosso corpo a morte de Jesus, para que também a vida de Jesus seja manifesta no nosso corpo» (2 Cor 4, 10). A essência da missão é testemunhar Cristo, isto é, a sua vida, paixão, morte e ressurreição por amor do Pai e da humanidade. Não foi por acaso que os Apóstolos foram procurar o substituto de Judas entre aqueles que tinham sido, como eles, testemunhas da ressurreição (cf. At 1, 22). É Cristo, e Cristo ressuscitado, Aquele que devemos testemunhar e cuja vida devemos partilhar. Os missionários de Cristo não são enviados para comunicar-se a si mesmos, mostrar as suas qualidades e capacidades persuasivas ou os seus dotes de gestão. Em vez disso, têm a honra sublime de oferecer Cristo, por palavras e ações, anunciando a todos a Boa Nova da sua salvação com alegria e ousadia, como os primeiros apóstolos.

Por isso, em última análise, a verdadeira testemunha é o «mártir», aquele que dá a vida por Cristo, retribuindo o dom que Ele nos fez de Si mesmo. «A primeira motivação para evangelizar é o amor que recebemos de Jesus, aquela experiência de sermos salvos por Ele que nos impele a amá-Lo cada vez mais» (Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 264).

Enfim, a propósito do testemunho cristão, permanece sempre válida esta observação de São Paulo VI: «O homem contemporâneo escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres (…) ou então, se escuta os mestres, é porque eles são testemunhas» (Evangelii nuntiandi, 41). Por conseguinte é fundamental, para a transmissão da fé, o testemunho de vida evangélica dos cristãos. Por outro lado, continua igualmente necessária a tarefa de anunciar a pessoa de Jesus e a sua mensagem. De facto, o mesmo Paulo VI continua mais adiante: «Sim! A pregação, a proclamação verbal duma mensagem, permanece sempre como algo indispensável. (...) A palavra continua a ser sempre atual, sobretudo quando ela for portadora da força divina. É por este motivo que permanece também com atualidade o axioma de São Paulo: “A fé vem da pregação” (Rom 10, 17). É a Palavra ouvida que leva a acreditar» (Ibid., 42).

Por isso, na evangelização, caminham juntos o exemplo de vida cristã e o anúncio de Cristo. Um serve ao outro. São os dois pulmões com que deve respirar cada comunidade para ser missionária. Este testemunho completo, coerente e jubiloso de Cristo será seguramente a força de atração para o crescimento da Igreja também no terceiro milénio. Assim, exorto todos a retomarem a coragem, a ousadia, aquela parresia dos primeiros cristãos, para testemunhar Cristo, com palavras e obras, em todos os ambientes da vida.

2. «Até aos confins do mundo» – A atualidade perene duma missão de evangelização universal

Ao exortar os discípulos a serem as suas testemunhas, o Senhor ressuscitado anuncia aonde são enviados: «Em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo» (At 1, 8). Aqui emerge muito claramente o caráter universal da missão dos discípulos. Coloca-se em destaque o movimento geográfico «centrífugo», quase em círculos concêntricos, desde Jerusalém – considerada pela tradição judaica como centro do mundo – à Judeia e Samaria, e até aos extremos «confins do mundo». Não são enviados para fazer proselitismo, mas para anunciar; o cristão não faz proselitismo. Os Atos dos Apóstolos narram-nos este movimento missionário: o mesmo dá-nos uma imagem muito bela da Igreja «em saída» para cumprir a sua vocação de testemunhar Cristo Senhor, orientada pela Providência divina através das circunstâncias concretas da vida. Com efeito, os primeiros cristãos foram perseguidos em Jerusalém e, por isso, dispersaram-se pela Judeia e a Samaria, testemunhando Cristo por toda a parte (cf. At 8, 1.4).

Algo semelhante acontece ainda no nosso tempo. Por causa de perseguições religiosas e situações de guerra e violência, muitos cristãos veem-se constrangidos a fugir da sua terra para outros países. Estamos agradecidos a estes irmãos e irmãs que não se fecham na tribulação, mas testemunham Cristo e o amor de Deus nos países que os acolhem. A isto mesmo os exortava São Paulo VI, ao considerar a «responsabilidade que se origina para os migrantes nos países que os recebem» (Evangelii nuntiandi, 21). Com efeito, experimentamos cada vez mais como a presença dos fiéis de várias nacionalidades enriquece o rosto das paróquias, tornando-as mais universais, mais católicas. Consequentemente, o cuidado pastoral dos migrantes é uma atividade missionária que não deve ser descurada, pois poderá ajudar também os fiéis locais a redescobrir a alegria da fé cristã que receberam.

A indicação «até aos confins do mundo» deverá interpelar os discípulos de Jesus de cada tempo, impelindo-os sempre a ir mais além dos lugares habituais para levar o testemunho d’Ele. Hoje, apesar de todas as facilidades resultantes dos progressos modernos, ainda existem áreas geográficas aonde não chegaram os missionários testemunhas de Cristo com a Boa Nova do seu amor. Por outro lado, não existe qualquer realidade humana que seja alheia à atenção dos discípulos de Cristo, na sua missão. A Igreja de Cristo sempre esteve, está e estará «em saída» rumo aos novos horizontes geográficos, sociais, existenciais, rumo aos lugares e situações humanos «de confim», para dar testemunho de Cristo e do seu amor a todos os homens e mulheres de cada povo, cultura, estado social. Neste sentido, a missão será sempre também missio ad gentes, como nos ensinou o Concílio Vaticano II (veja-se, por exemplo, o Decreto Ad Gentes, sobre a atividade missionária da Igreja, 07/XII/1965), porque a Igreja terá sempre de ir mais longe, mais além das próprias fronteiras, para testemunhar a todos o amor de Cristo. A propósito, quero lembrar e agradecer aos inúmeros missionários que gastaram a vida para «ir mais além», encarnando a caridade de Cristo por tantos irmãos e irmãs que encontraram.

3. «Recebereis a força do Espírito Santo – Deixar-se sempre fortalecer e guiar pelo Espírito

Ao anunciar aos discípulos a missão de serem suas testemunhas, Cristo ressuscitado prometeu também a graça para uma tão grande responsabilidade: «Recebereis a força do Espírito Santo e sereis minhas testemunhas» (At 1, 8). Com efeito, segundo a narração dos Atos, foi precisamente a seguir à descida do Espírito Santo sobre os discípulos de Jesus que teve lugar a primeira ação de testemunhar Cristo, morto e ressuscitado, com um anúncio querigmático: o chamado discurso missionário de São Pedro aos habitantes de Jerusalém. Assim começa a era da evangelização do mundo por parte dos discípulos de Jesus, que antes apareciam fracos, medrosos, fechados. O Espírito Santo fortaleceu-os, deu-lhes coragem e sabedoria para testemunhar Cristo diante de todos.

Como «ninguém pode dizer: “Jesus é Senhor” senão pelo Espírito Santo» (1 Cor 12, 3), também nenhum cristão poderá dar testemunho pleno e genuíno de Cristo Senhor sem a inspiração e a ajuda do Espírito. Por isso cada discípulo missionário de Cristo é chamado a reconhecer a importância fundamental da ação do Espírito, a viver com Ele no dia a dia e a receber constantemente força e inspiração d'Ele. Mais, precisamente quando nos sentirmos cansados, desmotivados, perdidos, lembremo-nos de recorrer ao Espírito Santo na oração (esta – permiti-me destacá-lo mais uma vez – tem um papel fundamental na vida missionária), para nos deixarmos restaurar e fortalecer por Ele, fonte divina inesgotável de novas energias e da alegria de partilhar com os outros a vida de Cristo. «Receber a alegria do Espírito é uma graça; e é a única força que podemos ter para pregar o Evangelho, confessar a fé no Senhor» (Francisco, Mensagem às Pontifícias Obras Missionárias, 21/V/2020). Assim, o Espírito é o verdadeiro protagonista da missão: é Ele que dá a palavra certa no momento justo e sob a devida forma.

É à luz da ação do Espírito Santo que queremos ler também os aniversários missionários deste 2022. A instituição da Sacra Congregação de Propaganda Fide, em 1622, foi motivada pelo desejo de promover o mandato missionário nos novos territórios. Uma intuição providencial! A Congregação revelou-se crucial para tornar a missão evangelizadora da Igreja verdadeiramente tal, isto é, independente das ingerências dos poderes do mundo, a fim de constituir aquelas Igrejas locais que hoje mostram tanto vigor. Esperamos que, à semelhança dos últimos quatro séculos, a Congregação, com a luz e a força do Espírito, continue e intensifique o seu trabalho de coordenar, organizar e animar as atividades missionárias da Igreja.

O mesmo Espírito, que guia a Igreja universal, inspira também homens e mulheres simples para missões extraordinárias. E foi assim que uma jovem francesa, Pauline Jaricot, há exatamente 200 anos fundou a Associação para a Propagação da Fé; celebra-se a sua beatificação neste ano jubilar. Embora em condições precárias, ela acolheu a inspiração de Deus para pôr em movimento uma rede de oração e coleta para os missionários, de modo que os fiéis pudessem participar ativamente na missão «até aos confins do mundo». Desta ideia genial, nasceu o Dia Mundial das Missões, que celebramos todos os anos, e cuja coleta em todas as comunidades se destina ao Fundo universal com que o Papa sustenta a atividade missionária.

Neste contexto, recordo também o Bispo francês Charles de Forbin-Janson, que iniciou a Obra da Santa Infância para promover a missão entre as crianças sob o lema «As crianças evangelizam as crianças, as crianças rezam pelas crianças, as crianças ajudam as crianças de todo o mundo»; e lembro ainda a senhora Jeanne Bigard, que deu vida à Obra de São Pedro Apóstolo, para apoio dos seminaristas e sacerdotes em terras de missão. Estas três obras missionárias foram reconhecidas como «pontifícias», precisamente há cem anos. E foi também sob a inspiração e guia do Espírito Santo que o Beato Paolo Manna, nascido há 150 anos, fundou a atual Pontifícia União Missionária a fim de sensibilizar e animar para a missão os sacerdotes, os religiosos e as religiosas e todo o povo de Deus. Desta última Obra, fez parte o próprio Paulo VI, que lhe confirmou o reconhecimento pontifício. Menciono estas quatro Obras Missionárias Pontifícias pelos seus grandes méritos históricos e também para vos convidar a alegrar-vos com elas, neste ano especial, pelas atividades desenvolvidas em apoio da missão evangelizadora na Igreja universal e nas Igrejas locais. Espero que as Igrejas locais possam encontrar nestas Obras um instrumento seguro para alimentar o espírito missionário no Povo de Deus.

Queridos irmãos e irmãs, continuo a sonhar com uma Igreja toda missionária e uma nova estação da ação missionária das comunidades cristãs. E repito o desejo de Moisés para o povo de Deus em caminho: «Quem dera que todo o povo do Senhor profetizasse» (Nm 11, 29). Sim, oxalá todos nós sejamos na Igreja o que já somos em virtude do Batismo: profetas, testemunhas, missionários do Senhor! Com a força do Espírito Santo e até aos extremos confins da terra. Maria, Rainha das Missões, rogai por nós!

Roma, São João de Latrão, na Solenidade da Epifania do Senhor, 6 de janeiro de 2022.

Franciscus
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